Divulgação informativa e cultural da Escola Secundária/3 Camilo Castelo Branco - Vila Real

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Entrevista a uma aluna universitária de Enfermagem


Na disciplina de Português, foi proposto aos alunos do 10º I realizarem uma entrevista. Optámos por entrevistar Ana Isabel Monteiro Faceira Rua, que está a frequentar o 4º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem, na Escola Superior de Enfermagem de Vila Real.
A entrevista tem como objectivo dar a conhecer um pouco da vivência no Ensino Superior e as mudanças do Ensino Secundário para o Ensino Superior.


M&C: Em que medida os seus pais, familiares e/ou amigos condicionaram a escolha do Curso que está a frequentar?
A.R.: Tive um bom apoio familiar, quando disse que ia seguir o Ensino Superior. Sempre foi desejo dos meus pais que eu fosse para o Ensino Superior. Nunca disse o que é que gostaria de seguir, porque não sabia muito bem, era uma grande responsabilidade… Mas, quando chegou a altura, e eu disse que gostava de ir para Enfermagem, ficaram todos contentes como é óbvio, não é? É um excelente Curso. Alguns colegas/amigos ainda disseram “Atenção que está cheio…”, e essas coisas todas, mas ninguém me impediu. Tenho dois tios, enfermeiros, de quem me sinto muito próxima, são como uns segundos pais, com quem convivia bastante, e o seu trabalho sempre me cativou um bocadinho, digamos assim. Sempre olhei para aquilo com certo carinho. Depois, quando chegou o 12º ano e tive de escolher um curso, escolhi Enfermagem.

M&C: Sabendo que, à entrada do Ensino Superior, os alunos têm de enfrentar múltiplos obstáculos, nunca pôs em causa a decisão de seguir um Curso Superior?
A.R.: O Ensino Superior é um obstáculo por várias razões. Nó temos de ter casa, temos de ter sítio, não é? … Há Cursos que não existem na nossa cidade e há as propinas que serão sempre um grande senão, porque não são baratas. Depois também temos as exigências do Curso em si. São três factores que, se nos deixarmos afectar por eles, nos podem impedir de fazer seja o que for. Temos é que saber trabalhá-los. Por exemplo, ninguém chega ao 12º ano e se lembra de dizer de repente “Ah!!, afinal vou para o Ensino Superior!” É uma coisa que tem de ser pensada. Depois vamos vendo as opções e trabalhando de forma a podermos estar preparados para isso. Só é um obstáculo se nós deixarmos que seja. Se estivermos realmente motivados, não é.

M&C: O Ensino Secundário é já um nível de ensino exigente. Sabendo isto, não teve receio em relação às exigências que o Ensino Superior lhe viria a colocar?
A.R.: O Ensino Secundário é exigente, quando chegamos lá (risos). Aí, achamos que o Ensino Básico até era fácil… Chegamos ao Ensino Secundário e dizemos: “Ai, meu deus, o Ensino Secundário é tão difícil!”. Mas depois chegamos ao Ensino Superior e “Ai, meu deus, o Ensino Secundário era tão fácil!”. Quando frequentava o Secundário, sabia que o Ensino Superior ia ser mais exigente. Ninguém no Secundário nos vai dizer que o degrau seguinte é fácil, muito pelo contrário, os professores dizem que se o Ensino Secundário é difícil, então o Ensino Superior mais difícil é, ou melhor, mais exigente é. Apesar de tudo, não tive medo, porque era aquilo que eu queria. Sabia que não ia ser fácil, mas também sabia que não ia ter dificuldades, tive foi de ter um ritmo diferente… Se um aluno, no Secundário, tiver um ritmo de estudo regular, quando chegar ao Ensino Superior tem apenas de aumentar esse ritmo. O segredo é não pensarmos que o Ensino Superior é um quebra-cabeças. Se soubermos isto e já levarmos um ritmo de trabalho do Secundário, é só mantê-lo e reforçá-lo. Quem se esteve sempre a baldar no Secundário e, mesmo assim, conseguiu entrar numa Universidade, dificilmente irá adquirir ritmo de trabalho. O Ensino Superior é uma coisa que fazemos por nós mesmos, porque queremos, por isso a responsabilidade é nossa. Tudo o que fazemos é por opção pessoal, daí a responsabilidade que temos que assumir. Por isso é exigente, é, mas não é nenhum bicho, nem nenhum monstro.

M&C: Que diferenças encontrou entre os dois níveis de ensino – o Secundário e o Superior?
A.R.: Como respondi na pergunta anterior, o Secundário é mais fácil. Para aquela disciplina, temos aqueles livros e é a única coisa que precisamos de estudar. No Ensino Superior já não é bem assim. As aulas são diferentes (na forma como são dadas), os horários são diferentes: no Secundário, estava habituada a um horário fixo durante todo o ano lectivo. Agora, não: há semanas em que tenho bastantes aulas e outras em que consigo ter uns furos, digamos assim. A exigência é diferente, é mais… é um nível superior… O ensino é muito mais especializado e virado para uma área específica. À partida, sabemos que o Ensino Superior vai ser diferente e mais exigente. Mas se queremos atingir os nossos objectivos, não podemos desanimar logo à primeira, não é? Normalmente, o primeiro ano nunca é fácil, porque é uma grande mudança, mas uma pessoa habitua-se e acaba por conseguir lidar com essas diferenças todas.

M&C: E quanto aos métodos de ensino? São distintos dos métodos utilizados no Secundário? Se sim, quais prefere?
A.R.: Não há um que eu prefira, porque são diferentes. No Ensino Superior, temos as aulas que os professores nos dão, com uso de PowerPoint ou textos, e a bibliografia facultada; depois, orientados pela bibliografia, vamos pesquisar o que queremos. Sobretudo agora, com Bolonha, os professores dão-nos a base e nós temos de ir procurar o resto. Há um grande trabalho por parte do aluno. Essa parte é particularmente diferente.

M&C: Como são as relações entre professores e alunos?
A.R.: As relações são boas. Os professores disponibilizam-se para nos ajudar, mas o Bolonha veio exigir de nós uma grande autonomia e sentido de responsabilidade. De vez em quando, temos de nos dirigir aos professores para tirar dúvidas. Até agora, nunca tive um professor que se recusasse a responder a uma pergunta. Claro que eles não nos vão dizer onde está a solução, apenas nos ajudam a chegar lá. Um dia, mais tarde, quando estiver no meu trabalho, não vou poder pegar no telefone para perguntar “Professor, olhe, estou com uma dúvida, o que vou fazer?”. No Ensino Superior, os professores dão-nos as bases, nós temos que fazer o resto.

M&C: Em que mediada a relação entre colegas constitui um factor favorável no processo de aprendizagem?
A.R.: Se tivermos amigos, eles vão puxar por nós, não é? Um amigo que nos passe a mão pelas costas e nos diga “Pronto, não te preocupes”, não é um amigo. Amigo é aquele que nos avisa “Olha que estás a fazer asneira…”. Claro que ter amigos melhora as coisas, mas não são os amigos que vão fazer o trabalho por nós, temos que ser nós a fazê-lo. As relações… criamos amigos para toda a vida. Aquilo que se diz na Universidade é verdade: aqui, nós fazemos amigos para toda a vida, especialmente no período de estágio, que é quando nos apercebemos melhor disso. Os amigos são uma grande ajuda, mas o trabalho tem de ser essencialmente nosso.

M&C: Em que consiste a vertente prática do seu Curso?
A.R.: A vertente prática é realizada em contexto de ensino clínico, ou seja, no estágio, onde o intenso ensino clínico vai corresponder às temáticas que foram leccionadas nas unidades curriculares. Não é a matéria que eu aprendi nas aulas que vai ser trabalhada no final de cada ano no hospital ou num Centro de Saúde…

M&C: Como lida diariamente com o sofrimento dos doentes?
A.R.: Esta pergunta não é propriamente fácil (risos). Como é que se lida com o sofrimento de alguém? Tentamos fazer o melhor para aliviar esse sofrimento e às vezes basta estar disponível para ouvir o doente, porque aquilo de que muitos precisam é de alguém que os ouça, que esteja um bocadinho, cinco, dez minutinhos, a falar com eles, a ouvi-los. Há pessoas com dores, que estão em fase terminal… nunca é fácil… Mas o facto de terem alguém que lhes dê um pouco de atenção durante cinco minutos, pode significar tudo para uma pessoa doente. Claro que não podemos ir para casa a pensar no senhor x que está como está, ou na senhora y. Embora não seja fácil, nós também temos que criar defesas e saber separar as coisas.

M&C: Quando contactou pela primeira vez com um doente, qual foi a sua reacção?
A.R.: A primeira vez que me atribuíram um doente estava nervosa e ao mesmo tempo ansiosa. Acho que é normal, porque se trata de uma pessoa de quem vamos cuidar. Nesse dia temos verdadeiramente a noção da responsabilidade que é fazer uma assistência. Além disso, queremos fazer o melhor, queremos dar sempre o melhor, não é? Queremos que esse doente, e todos os outros doentes que vamos ter dali para a frente, tenham sempre o melhor que lhes podemos dar enquanto profissionais de saúde.

M&C: Recorda-se de algum doente, ou situação, que a tenha marcado particularmente? Porquê?
A.R.: Assim, de repente, não me recordo de nenhuma situação em particular, porque são tantas pessoas…mas lembro-me de uma senhora, no meu primeiro ano: quando eu e os meus colegas nos fomos embora (estávamos a estagiar) a senhora virou-se para nós, a chorar, e disse “Obrigada pela vossa atenção. Obrigada pelo carinho”. Como já tive oportunidade de referir, o que as pessoas querem, muitas vezes, é um pouco de carinho, alguém que esteja um bocadinho com elas, não é? As pessoas não têm que nos agradecer, nós estamos lá para trabalhar, mas o facto de fazerem isso, às vezes melhora o nosso dia em muitos aspectos. Quando conseguimos arrancar um sorriso de alguém que está a sofrer, a nossa auto-estima melhora, porque um sorriso não se dá de qualquer forma, sobretudo por parte de alguém que sofre.

M&C: O facto de lidar com pessoas doentes faz com que tenha uma visão diferente do mundo?
A.R.: Não, em particular. Acho que qualquer pessoa que esteja frente a frente com alguém que esteja doente fica diferente. Não começa a ver flores nem um mar de rosas em todo o lado, mas tem a noção de que, se calhar, precisa de reavaliar as coisas a que dá importância. Se vivêssemos um pouco mais o dia de hoje, em vez de estarmos constantemente a pensar no amanhã, a nossa existência seria um bocadinho melhor. Todos os dias vemos nos telejornais imagens de pessoas que sofrem, mas ver as pessoas a sofrer mesmo à nossa frente é diferente, toca-nos de tal forma que nunca mais esquecemos. Aconteça o que acontecer, vamos sempre lembrar-nos disso.

M&C: Em que medida o Curso que está a frequentar está, ou não, a corresponder às suas expectativas.
A.R.: Agora que estou no 4º ano, na fase final do meu Curso, posso dizer que está a corresponder àquilo de que eu estava à espera. Se calhar foi um bocadinho mais exigente do que esperava, exige muito de nós a vários níveis, mas sinto que as coisas correram bem e que o Curso nos prepara para o que nos vai acontecer lá fora, no mundo do trabalho. Há experiências que, claro, são independentes do Curso em si. Passámos por ensinos clínicos para que ninguém nos prepara mas, no geral, acho que o Curso nos dá as bases necessárias para podermos ser bons profissionais.

M&C: Em termos profissionais, quais são as suas expectativas?
A.R.: Uma pergunta complicada. Toda a gente sabe que a Enfermagem não está nos seus melhores dias (a comunicação social tem falado disso e recentemente houve mais uma greve). Parece haver enfermeiros a mais, os hospitais estão cheios... Quais as minhas expectativas profissionais? Não penso ficar em Vila Real, porque quero trabalhar e não vou ficar à espera de uma vaga para poder ficar em casa. O que não quero é ficar desempregada. Se arranjar trabalho por cá, óptimo, se não, paciência. Portugal é grande e o Mundo lá fora ainda maior. Vou começar a pensar seriamente em ir para fora, porque, já que tenho de sair, então que saia mesmo. Mas só quando tiver os papéis na mão a dizer que sou licenciada em Enfermagem e estiver em condições de me puder candidatar aos hospitais, Centros de Saúde e outras instituições é que realmente vou tomar uma decisão.

M&C: Obrigado pela sua colaboração e pelo tempo dispensado para a entrevista.

Cláudia Sofia Cigre Fernandes, nº 8, 10º I
Mónica Isabel Teixeira da Fonseca, nº 17, 10º I

ENTREVISTA COM A Dra. FERNANDA BOTELHO

“Se os jovens podiam viver sem filosofia? Sim, podiam. Mas não seria a mesma coisa! …”


A nossa entrevistada é nossa professora de Filosofia e Directora de Turma. A Dra. Fernanda Botelho formou-se na Universidade do Porto. Começou a leccionar aos 21 anos, tendo agora 15 anos de serviço. Escolhemos esta docente da Camilo por acharmos ser uma pessoa cuja experiência profissional pode interessar a alunos da nossa faixa etária.

Rafael e Vanessa - Nutriu desde sempre um interesse especial pela Filosofia ou despertou tardiamente para esta área do saber?
Fernanda Botelho
- O meu interesse pela filosofia nasceu da sabedoria popular, das histórias que a minha mãe me contava em criança e que me levavam a fazer perguntas. Claro que na altura desconhecia o que era a filosofia, pelo que esta é uma reflexão que só posso fazer a posteriori, mas terão sido essas histórias que me levaram a sentir curiosidade pelo saber.

RV - Houve alguém (ou algo) na sua vida que a tenha influenciado na opção pela docência e, em particular, pelo ensino de Filosofia?
FB - Já em criança gostava de brincar “às escolas”, facto que, confesso, não agradava muito aos meus amigos, que preferiam outro tipo de brincadeiras.
Como não é fácil decidir um caminho profissional, também tive as minhas indefinições. Cheguei a pensar em Direito, História, Relações Internacionais, mas o interesse pela filosofia, desenvolvido ao longo do Ensino Secundário, acabou por ser determinante. Ingressei por vocação no curso de Filosofia, mas não se tratou de uma escolha pacífica, pois sofri muitas pressões no sentido de alterar a minha decisão. O ataque de que a filosofia era alvo no plano institucional (na década de 90 chegou a falar-se da extinção da Filosofia do currículo do Ensino Secundário) fragilizava ou ameaçava o meu futuro profissional e fundamentava a opinião de amigos e familiares que contestaram, à época, a minha escolha profissional.

RV - Alguma vez pensou em leccionar outra disciplina que não fosse Filosofia? Se sim, qual?
FB - Sempre gostei muito de História, pelo que também me veria a leccionar esta disciplina. Mas a ausência de barreiras em Filosofia, o facto de não possuir um objecto de estudo bem delimitado, tal como acontece no campo das ciências, significa, a meu ver, uma mais-valia, que o professor de Filosofia deve saber aproveitar. Ainda que por vezes sejamos acusados de “falar de tudo, sem saber especificamente nada”, ou então se diga que “A filosofia é a disciplina com a qual, ou sem a qual, se fica tal e qual”.

RV - Sendo professora de Filosofia, considera que possui uma visão diferente do Mundo?
FB - Pelo menos tento… A postura de flexibilidade e abertura e a prática constante de uma atitude não dogmática deverão ser as linhas de força de qualquer projecto de vida.

RV - A nível profissional, como encara os problemas que se colocam na sua vida?
FB - Encaro os problemas como oportunidades de afirmação da liberdade pessoal e não como obstáculos intransponíveis.

RV - Já alguma vez pensou ter sido um erro ter optado pelo ensino? Se sim, porquê?
FB - Confesso que os últimos tempos não têm sido fáceis mas, apesar de tudo, considero ter feito a opção correcta.

RV - Participou em alguma das manifestações levadas a cabo pelos professores contra as políticas do governo anterior, no âmbito da Educação? Se sim, quais as razões que a moveram?
FB - Participei em duas manifestações de professores, uma de âmbito nacional e outra regional. Entendi, na altura, que os professores estavam a ser alvo da arrogância e prepotência do Ministério da Educação, incapaz de entender que é impossível efectuar quaisquer reformas sem o apoio dos professores.
Afirmações do género “Perdi os professores, mas ganhei os portugueses” suscitaram a minha indignação e conduziram-me a tais protestos.
No entanto, também considero que houve, por parte dos Sindicatos e Movimentos associados à contestação das políticas do governo anterior, erros estratégicos e excessos de linguagem, que em nada dignificaram a profissão docente. Por isso, afastei-me das contestações e decidi seguir o meu próprio caminho.
Ao fim de quatro anos de contestações e com a assinatura do acordo de entendimento entre Sindicatos e o actual Ministério da Educação, acentuou-se o meu niilismo em matéria de reivindicações sindicais…

RV - Neste momento o ensino não vive os seus melhores dias. Acha, mesmo assim, que os jovens que pretendem vir a enveredar pela docência devem continuar a alimentar o seu sonho? O que lhes aconselharia e porquê?
FB - Freud terá dito um dia que há três tarefas impossíveis: educar, governar e psicanalizar. Mas tal não o impediu de aplicar o método psicanalítico, conduzir a formação de psicanalistas e optar pelo governo inglês, em detrimento do governo da Alemanha nazi. Não quererendo enveredar por pessimismos educativos ou por pedagogias românticas, questiono: Não deverá um professor ficar contente quando um jovem adolescente afirma ter o sonho de ser professor? Por que razão, de imediato, o disssudimos de tal intento?

RV - Na sua opinião, em que medida a disciplina de Filosofia é importante para a formação dos jovens?
FB - A Filosofia tem vivido ameaçada pela possibilidade de desaparecer do currículo do Ensino Secundário, o que a meu ver seria um erro grosseiro. É evidente a existência de um certo mal-estar por parte de alguns sectores socioprofissionais, uma recusa, uma crítica e, frequentemente, uma avaliação preconceituosa da Filosofia e da Filosofia enquanto disciplina escolar.
Claro que a minha convicção é outra: a escola é o espaço privilegiado para a concretização de uma filosofia enraizada, para a concretização do papel vigilante e actuante da Filosofia na sociedade. Neste sentido, os conteúdos filosóficos a ensinar não devem constituir um fim em si mesmo, mas devem estar direccionados para algo mais, para um impacto vital na formação dos alunos.
Se os jovens podiam viver sem filosofia? Sim, podiam. Mas não seria a mesma coisa! …

RV - Acha que a Filosofia deveria ser abordada desde o 7º ano, não de uma maneira tão específica como no 10º ano, mas de uma maneira mais geral ou talvez como disciplina opcional?
FB - Defendo que a Filosofia pode e deve ser desenvolvida desde muito cedo, logo no ensino pré-escolar, com comprovadas vantagens em termos de autonomia de pensamento e sentido crítico. Matthew Lipman deu início, na década de 70 do século XX, ao Movimento da Filosofia para crianças, que inspirou muitos professores, que levaram a cabo projectos destinados a desenvolver as competências básicas de raciocínio.

RV - Há quatro anos que lecciona nesta escola. Na sua opinião, quais são os aspectos positivos e negativos deste estabelecimento de ensino em relação às condições de que dispõe para trabalhar?
FB - Quanto aos aspectos positivos selecciono aquilo a que chamo uma “cultura de escola” assente no valor essencial da entreajuda e para a qual procuro activamente contribuir.
Em termos de aspectos negativos, saliento a necessidade urgente de obras, quer no edifício principal, quer nos “provisórios, mas mais do que definitivos” anexos. A falta de salas é também um problema, que urge superar para que seja possível concretizar projectos extracuriculares, como Clubes.

Rafael Silva, nº24
Vanessa Guerra, nº27, do 10ºB
Fotografia: Rafael e Vanessa

Entrevista a ex-aluna

“vale mais não conseguir de que nunca chegar a tentar. Portanto: tentem!”

Conceição Aleixo é uma ex-aluna da Escola Secundária Camilo Castelo Branco. Tendo escolhido a área de Humanidades, entrou para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro no ano de 2002. Licenciou-se em Línguas Estrangeiras Aplicadas, vertente de Comunicação. Apesar de ter estagiado e trabalhado alguns anos em jornalismo, é actualmente professora de Espanhol numa escola do Porto. Esta é a nossa entrevistada.

D&V - Com que idade entrou no então chamado Liceu Camilo Castelo Branco?
R: Entrei com 15 anos.
D&V- Que área escolheu? Porquê?
R: Na altura, escolhi Humanidades, não para fugir à Matemática, mas para entrar na Universidade. Queria ir para Direito ou Jornalismo. É claro que com o tempo acabou por não ser bem assim.

D&V- Gostou de andar no liceu?
R: Muito. Foi dos melhores tempos da minha vida. Apesar dos altos e baixos, normais na adolescência, e de alguns problemas por que a minha turma passou, nomeadamente o falecimento de uma colega, consegui aproveitar bem o tempo de liceu, tanto nos estudos como no lazer.

D&V - Fez parte da Associação de Estudantes?
R: Não fiz directamente parte da A.E, visto que não fazia parte da lista, mas o meu melhor amigo sim e, no meu 12º ano, acabei por trabalhar e cooperar com a Associação.

D&V - Gostou de colaborar com a A.E.?
R: Gostei muito. Foi uma experiência diferente, e acho que é sempre importante os jovens aderirem a várias actividades, principalmente aquelas que têm um carácter organizativo e implicam o assumir de responsabilidades.

D&V- Quando entrou para a faculdade teve algum receio em relação ao curso que escolheu?
R: Bastante. Aliás, eu acho que os jovens têm de escolher a área de estudos muito cedo, o que condiciona a posterior escolha do curso. Eu escolhi Humanidades, apesar de adorar Matemática. Acabei por não entrar em Jornalismo, e entrei num curso que me pareceu mais adequado aos meus objectivos. Entrei no curso de Línguas Estrangeiras Aplicadas, na UTAD, que é um curso de línguas mas com vertente empresarial, direccionado para a comunicação, mas, obviamente, tive receio de que aquilo não fosse bem o que queria.

D&V- Enquanto frequentou esse curso, em algum momento pensou mudar?
R: Várias vezes pensei nisso, mas estava a gostar do curso, portanto decidi terminar e depois tirar outro.

D&V - Do que gostou mais na Faculdade? Quais as suas disciplinas preferidas?
R: As disciplinas de que gostei mais foram aquelas que representavam um desafio maior, ou seja, aquelas nas quais era difícil tirar boa nota, tipo Direito, Inglês (último nível) e Economia. Ou seja, soube-me melhor tirar 17 a Direito de que 20 a Informática, porque foi a disciplina mais difícil do nosso curso.
Quando ao que gostei mais na faculdade, é difícil de dizer… gostei muito do que aprendi em termos curriculares, mas gostei ainda mais do que aprendi socialmente. A Faculdade faz-nos crescer muito e, é claro, gostei muito da diversão que também faz parte da vida de um estudante universitário.

D&V- Quando fez o seu estágio, como foi lidar com os alunos?
R: Eu não fiz estágio na área do ensino. Apenas fiz estágios curriculares durante o tempo lectivo, no meu primeiro ano. Mas fiz estágio em jornalismo numa revista que saía com o Jornal de Notícias. Após isso, fiz vários outros estágios também relacionados com a comunicação e o turismo. Ou seja, comecei a aprender o que é trabalhar mal entrei para a Universidade, com 18 anos.

D&V- Quando acabou o estágio, foi fácil arranjar emprego?
R: Quando acabei o curso, consegui logo trabalho, como assistente editorial numa revista de vinhos. Mais tarde, saí dessa revista e fiquei três meses no desemprego. Foi então que o ensino entrou na minha vida, ao ser convidada para dar aulas de Inglês nas actividades extra-curriculares a alunos do 1º ao 4º ano do 1º Ciclo.

D&V- Neste momento ainda está a exercer a sua profissão como professora?
R: Sim, este ano fiquei colocada numa escola no Porto, a leccionar Espanhol.

D&V- Teve algumas dificuldades em ensinar e lidar com os alunos?
R: Sim, eu passai quatro anos a trabalhar em jornalismo, e quando comecei a dar aulas, como não tinha formação em ensino, foi complicado.

D&V- Prefere leccionar no Básico ou no Secundário?
R: Depende das turmas. Infelizmente, o mau comportamento e o desinteresse existe quer no Básico, quer no Secundário. Mas, quando os alunos sabem o que quer em relação ao futuro e são ambiciosos, é possível criar um bom ambiente de trabalho e construir uma relação de amizade entre professor e alunos. No Secundário, devido à minha idade, tenho de ser mais firme no início, mas depois consigo conquistar a confiança dos alunos, muitos dos quais têm quase a minha idade.

D&V- Como é leccionar uma língua estrangeira?
R: Por vezes não é fácil. O Inglês é uma disciplina em que os alunos sentem muitas dificuldades, e o Espanhol é uma disciplina relativamente nova em termos curriculares e pouco divulgada. Para além disso, como a nível fonético é parecida com o Português, há a tendência de se pensar que é fácil, e não é bem assim...

D&V- Quais são os seus objectivos para o futuro?
R: Neste momento estou a tirar o Mestrado em Ensino de Inglês e Espanhol, o que me vai dar habilitação própria para leccionar. Mas quero também tirar outro curso.

D&V- Actualmente, muitos professores estão sem colocação. Tem receio de ficar desempregada?
R: Por enquanto não, visto que há poucos professores de Espanhol, mas continuo a trabalhar para ter cada vez mais opções e evitar o desemprego.

D&V- Tem preferência por alguma escola? Porquê?
R: Eu gosto muito da escola em que estou e não me importava de ficar lá novamente no próximo ano lectivo. Mas, se for outra, não me importo. Gosto de desafios.

D&V- Que conselhos daria aos estudantes do ensino secundário?
R: Aconselhava-os a serem ambiciosos (que é o que falta actualmente) e a não se contentarem com o mínimo; a trabalharem e não desistirem daquilo que querem. Não aceitem o Não. Como costumo dizer, vale mais não conseguir de que nunca chegar a tentar. Portanto: tentem!

Daniela Mourão, nº11, 10º I
Virgília Camões, nº22 , 10º I
Fotografia: Virgilia Camões

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Entrevista a um antigo aluno

“Foram anos importantes que ajudaram a definir a pessoa que sou hoje.”

Antigo aluno da escola Camilo Castelo Branco, de Vila Real, sempre ligado às raízes escolares que lhe forneceram os ensinamentos de suporte para a vida, Sérgio Reis, de 22 anos, falou-nos um pouco do seu percurso escolar e profissional.

J&T - Como antigo aluno do Liceu, que recordações levou desta escola?
-
Essencialmente boas recordações. Relembro a maioria de todos os professores e funcionários, que ainda hoje me cumprimentam e me conhecem, e especialmente a memória de todos os amigos/as que fiz durante a minha passagem pela escola secundária. Foram anos importantes que ajudaram a definir a pessoa que sou hoje. Tentei aprender com todos e a retirar o melhor de cada um. Todos os professores foram importantes na minha formação e todos os meus colegas me ajudaram a crescer. Sem dúvida que passei muitos momentos divertidos durante esses anos.

J&T - Já teve oportunidade de visitar a escola? Acha que algo poderia ser melhorado?
- Já tive oportunidade de visitar a escola após a minha saída e penso que ela tem melhorado a nível das condições. Na minha opinião, ao nível de estruturas é das melhoras escolas das proximidades e penso que actualmente está ainda melhor. Em relação a esta questão, penso apenas que a possibilidade de as turmas serem menores poderia ajudar a melhorar os resultados. De resto, penso que os alunos têm todas as condições para atingir um bom nível de ensino.

J&T - Seguiu para a universidade?

- Sim, posteriormente ao Secundário segui para o Ensino Superior, tendo entrado na UTAD, por opção pessoal.

J&T - As bases que adquiriu no Secundário foram adequadas às exigências do Ensino Superior?
- Por culpa minha, talvez não tenham sido as mais adequadas, uma vez que queria seguir Letras e não optei por essa área no Secundário, apesar de ter tido essa hipótese. Mas penso que, de uma ou outra forma, todos os professores me ajudaram. Como é natural, uns mais que outros, mas todos conseguiram despertar em mim o hábito de estudo que me tem sido muito útil e indispensável no meu curso. Por isso encontro-me agradecido a todos eles. E tendo em conta o que vejo na universidade, penso que o Ensino Superior necessitava de muitos deles.

J&T - Que curso está a frequentar?
- Sou finalista do curso de Ciências da Comunicação.

J&T - Qual é a profissão que pretende exercer no futuro? Porquê?
- Neste momento já estou a estagiar como jornalista. É a profissão com que sonhava quando era mais novo, a par de jogador de futebol (risos), e por isso estou motivado por as coisas estarem a correr bem. Porquê? Porque acho que os profissionais desta área desempenham um papel fulcral na sociedade actual, porque a comunicação sempre me despertou muita curiosidade e porque dizem que tenho jeito (risos).

Texto:
João Moreira, Nº17, 10ºB
Tiago Relvas, Nº25, 10ºB

Entrevista com o Sr. Valério, responsável pela cantina da escola

“Temos cá gente muito bem esclarecida acerca das questões alimentares e portanto há uma percentagem elevada de alunos que sabem aproveitar a cantina”

Hoje em dia, é fundamental ter uma alimentação saudável e as escolas devem estar preparadas para fornecer aos alunos refeições equilibradas, com todos os nutrientes de que necessitam. A entrevista que se apresenta foi realizada com o Sr. Valério, responsável pela alimentação na nossa escola.

- Quais são as suas funções no que diz respeito à alimentação aqui, na escola?
-
As minhas funções são, efectivamente, a elaboração das ementas semanais para o refeitório e a aquisição dos alimentos que consumimos no buffet e na cantina. Relativamente às ementas, existem directrizes que vêm anualmente do Ministério, as quais nós tentamos seguir com algum cuidado. Sou contra tudo aquilo que é considerado um exagero, como é o caso daqueles alunos que, tendo a oportunidade de comer na cantina, optam por comer fora da escola com custos elevados e uma qualidade péssima.

- Na sua opinião, que papel deve desempenhar a escola na educação da dieta alimentar dos alunos?
- As escolas têm um papel fundamental, especialmente as escolas básicas. Os alunos chegam aqui, com cerca de 12 anos, e já trazem hábitos alimentares pouco saudáveis. Como já referi anteriormente, nós procuramos, fornecer uma alimentação o mais correcta possível, mas a actuação da escola Secundária na correcção dos erros alimentares poderá já ser tardia.
- Como se sente pelo facto de ter a responsabilidade do sector alimentar?
- Sinto-me muito bem, orgulhoso por trabalhar nesta área, até porque sempre procurei ter uma alimentação saudável. Nós compramos os produtos na sua origem e procuramos confeccionar os pratos a partir deles. Por exemplo, nunca compramos batatas já fritas ou batatas congeladas. Tudo isto permite que a qualidade do produto chegue mais facilmente à mesa.
- Muitos alunos preferem comer fora da escola, quando o poderiam fazer na cantina. O que tem a dizer sobre isto?
- Eu vejo isto como um péssimo hábito, que tem a ver exactamente com o que disse há pouco: são aqueles maus hábitos que já vêm de trás... Encaro a situação com alguma tristeza, mas a própria escola deveria fazer algo mais do que aquilo que faz, refiro-me mais propriamente ao controlo das saídas.
- Sente que os jovens que frequentam a nossa escola dão importância à cantina? De que forma?
- Temos cá gente muito bem esclarecida acerca das questões alimentares e portanto há uma percentagem elevada de alunos que sabem aproveitar a cantina, não desperdiçando a sopa, as saladas, os legumes, e por aí fora. De certeza que existem escolas que não têm a qualidade alimentar que nós temos.

- Há uns anos atrás, a cantina desta escola foi considerada como a melhor do país…
- Num universo de quatrocentas e oitenta escolas, foi considerada a melhor, o que é óptimo, um imenso orgulho! Nessa altura, dei imensas entrevistas, desde a televisão, à rádio, e a nossa escola andou mesmo lá no alto!

- Podemos encontrar na escola algumas máquinas com alimentos não muito saudáveis, como é o caso daquela que se encontra ao pé do bar. Acha correcta a presença dessas máquinas? Porquê?
- Acho incorrecto, sou fortemente contra isso, porque a própria máquina funciona como um chamariz e leva muitos alunos a comer esse tipo de alimentos em vez de irem ao bar. Por exemplo, os alunos do sétimo ano, que à partida não saem da escola, se não tivessem lá a máquina não comeriam esses alimentos e iriam ao bar.

- O que pensa de alguns dos alimentos que os alunos consomem hoje em dia fora da escola, como por exemplo os chamados panikes’s e as bebidas enlatadas?
- Eu sou contra as bebidas enlatadas, porque todo o mundo sabe os malefícios que elas têm, basta olhar para os ingredientes que estão lá para ver. Relativamente aos panikes’s, uma vez ou outra não acho mal, eu também gosto de comer uma pizza de vez em quando e quanto a isso não creio que seja por aí que vamos prejudicar a nossa alimentação. Mas nunca devemos fazer disso um hábito.

- Concorda com a afirmação: “Somos o que comemos”?
Perfeitamente, sempre concordei e, vindo de alunos com a vossa formação, penso que não há dúvidas.

- Como pessoa atenta a uma alimentação saudável, que conselho daria aos alunos?
- O meu conselho é que pensem bem antes de pedirem, antes de comprarem, e sobretudo que não cometam asneiras alimentares diariamente.

Entrevista realizada por
André Sobreira, nº 6,
José Miguel Cunha, nº 18

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

UMA AULA DIFERENTE

UMA AULA DIFERENTE
com a Dr.ª Catarina Oliveira

No passado dia 5 de Fevereiro realizou-se uma aula diferente, para a turma B do 10º ano.
A Dr.ª Catarina Oliveira, convidada pela professora Fernanda Botelho (que lecciona a disciplina de Filosofia à turma), disponibilizou-se para uma Sessão de Esclarecimento sobre o combate à pobreza e à exclusão social. A socióloga do Núcleo de Vila Real da REAPN (Rede Europeia Anti-Pobreza Nacional) falou sobre o seu trabalho nesta organização não-governamental que tem como principal objectivo a união numa só voz.
De entre os assuntos tratados, destacamos a abordagem teórica, apoiada em estudos científicos, das causas e consequências da pobreza e exclusão social. No final, a nossa sensibilidade foi objecto de um apelo por parte da REAPN, uma vez que esta entidade funciona maioritariamente com voluntários. E ainda foram divulgados sites tais como: http://www.reapn.org/ (da REAPN) e http://www.2010combateapobreza.pt/ (projecto escolas na luta contra a pobreza).
A iniciativa foi um sucesso e os alunos do 10º B fazem votos por novas oportunidades semelhantes a esta.
«Não durmas sobre o assunto, acorda para ele!»

Bárbara Fontes, 10ºB

domingo, 7 de fevereiro de 2010

ENTREVISTA AO PADRE JOÃO CURRALEJO

Um padre actual, com mentalidade jovem e de fácil relacionamento

“A Igreja precisa de estar muito atenta às mudanças e à evolução social para que a sua linguagem e pensamento sejam compreendidos pelos homens e mulheres de hoje.”

A&A - Com que idade soube que queria ser padre?
Padre João
- A vocação é um processo. A primeira ideia surgiu na escola primária, mas a decisão só foi tomada aos 21 anos.

A&A - O que leva um jovem de 21 anos a seguir este caminho?

Padre João - Várias razões, mas o essencial foi a experiência de Deus que fui tendo, a identificação com um ideal de vida dedicada aos outros que me pareceu ser um projecto feliz e também a necessidade de padres que percebi que havia.

A&A - Em que medida esta decisão mudou a sua vida?
Padre João - Mudou muito porque, por um lado, desde que entrei no seminário com 12 anos, esse tempo de “namoro” foi orientado para este estilo de vida, por outro lado, foi mesmo o deixar de lado tudo o que seria “normal”: uma família, um emprego, a minha própria casa … O tornar-me padre foi apenas uma oficialização, uma espécie de casamento após anos de namoro.

A&A - E hoje, sente-se feliz enquanto padre?
Padre João
- Muito, porque posso viver sem preocupações próprias (como o meu sustento, por exemplo) para me poder dedicar totalmente aos outros e sinto-me muito útil porque vejo que as pessoas precisam de Deus e a Palavra de Deus faz a diferença em determinados momentos.

A&A - Nunca lhe apeteceu desistir? Se sim, porque não o fez?
Padre João - Várias vezes, quando algumas coisas me decepcionaram ou quando sinto mais solidão. Não desisti, porque sinto um vínculo (compromisso) muito forte com Deus desde a ordenação e sempre Lhe peço ajuda para ser fiel ao “Sim” que dei. Tal como num casamento, como referi anteriormente, há altos e baixos, momentos melhores e piores numa relação. Já me aconteceu estar em momentos menos bons mas mesmo assim não desisti, com a Sua ajuda consegui continuar.

A&A – Hoje em dia, ouve-se muito falar da falta de vocação para o sacerdócio. Sendo um padre jovem, como explica o facto de na Igreja católica haver cada vez menos padres?
Padre João - Eu penso que tal situação é fruto de uma crise geral da sociedade que tem dificuldade em assumir compromissos estáveis, sobretudo os que são para toda a vida. No entanto, e ao contrário do que as pessoas possam pensar, não há falta de padres jovens. Há, sim, um número reduzido de padres da faixa etária correspondente ao 25 de Abril, onde houve um excesso de liberdade. Na minha opinião, nem oito nem oitenta, nem fanatismo, nem desinteresse total.

A&A – Na sua opinião, o facto de a maioria dos padres ter muita idade afecta a relação da Igreja com a população mais jovem?
Padre João - Creio que sim, embora com certas excepções porque há padres já com uma certa idade que são jovens por dentro e conseguem cativar os outros jovens. Contudo parece-me óbvio que os jovens se identifiquem com quem esteja próximo deles, das suas questões, da sua linguagem, e a proximidade da idade ajuda muito.

A&A - Como explica a existência de Deus na vida das pessoas e de que modo a podemos experimentar?
Padre João - Deus não se explica, experimenta-se, na medida em que nos interrogamos sobre a nossa vida e o sentido das grandes dimensões da existência: nascer, crescer, o que fazer na vida, como ser feliz, o sofrimento, a morte e a grande questão do depois da morte. Deus sente-se dentro de nós e, mesmo que ainda não nos tenhamos apercebido disso, Ele está lá. Quando nos procuramos a nós próprios, acabamos também por O descobrir.

A&A – A Igreja Católica constitui um alvo de exercitação da crítica, por revelar, dizem, um total alheamento das exigências dos tempos actuais, das necessidades, interesses e inquietações das pessoas, em suma, por não ter em conta a vida real. Como se posiciona face a essas críticas?
Padre João - Por um lado, as propostas (propostas, pois não nos obrigam a nada) da Igreja, tal como as dos nossos pais, são exigentes, e por vezes não nos agradam, mas são verdadeiras e procuram a máxima realização da pessoa; por outro lado, a Igreja precisa de estar muito atenta às mudanças e à evolução social para que a sua linguagem e pensamento sejam compreendidos pelos homens e mulheres de hoje.

A&A - Milhões de pessoas morrem de sida em África. No entanto, a Igreja Católica é claramente contra o uso do preservativo. Qual é a sua opinião sobre este assunto?
Padre João
- O uso do preservativo é desaconselhável, sobretudo nos países referidos. Prova disso é o programa ABC (Abstrair, Be faithful, Condomise), implementado em vários países e com muito sucesso, que vem defender a abstinência e a fidelidade dentro do casamento. Estes são os valores que dão melhor resultado a curto e a longo prazo e as melhores ferramentas para combater as doenças sexualmente transmissíveis. Só num terceiro momento se pode admitir o uso do preservativo, isto é, nos casos em que não se consiga cumprir os dois primeiros pontos.
Acredito que a Igreja tem o dever moral de ajudar à formação integral da pessoa de modo que cada pessoa possa evitar por si comportamentos de risco.

A&A – O que pensa da nova Lei do casamento gay?
Padre João - Um atentado à família. Que todas as uniões estáveis entre duas pessoas, independentemente da orientação sexual, tenham um reconhecimento social e um enquadramento jurídico, sim, mas tratar igual o que é diferente, não; e chamar família ou casamento a estas uniões, não. Também não se chama casamento às uniões de facto heterossexuais, no entanto têm reconhecimento e direitos legais.

A&A - Sendo o Papa abertamente contra o casamento gay e contra o preservativo, de que modo a posição papal influenciou a sua opinião sobre estes temas?
Padre João
- O Papa é o porta-voz dos católicos do mundo. A nível dos princípios e valores que a Igreja defende tem tanto peso a opinião do papa, como a de qualquer leigo ou padre do mundo. O pensamento da Igreja é trabalhado a nível das bases e depois ganha forma em documentos assumidos e trabalhados nos Concílios (o último teve lugar entre 1962 e 1968, muito antes deste papa ou do papa João Paulo II). A minha opinião não depende, portanto, das posições dos papas.

A&A – Por vivermos num estado republicano e laico, foram mandados retirar todos os crucifixos das escolas. Na sua opinião, isso é bom ou mau?
Padre João - Por um lado, é mau, porque o crucifixo é um símbolo cultural que não faz mal nenhum e que incentiva ao respeito, à tolerância, ao amor e às raízes
cristãs da cultura ocidental. Por outro lado, pode ser muito bom na medida em que pode tirar da cabeça das pessoas muitas superstições, nomeadamente a de pensarem que estão protegidas por terem um crucifixo, um terço no carro, etc., pois o importante são os valores que trazemos dentro de nós e que norteiam a nossa conduta.

A&A - Considera que os padres deviam tomar parte activa n a sociedade como, por exemplo, desempenhar cargos políticos?
Padre João - Pela sua missão, penso que não deve estar ligado a nenhum partido pois deve ser/estar disponível para todos. Fora isso, claro que sim. Isso acontece em muitas associações, lares de idosos, misericórdias, etc.

A&A - No livro Caim, de José Saramago, afirma-se que a Bíblia é “um manual de maus costumes”. Considera esta afirmação ofensiva?
Padre João
- Por um lado, não, porque a Bíblia tem tudo o que é humano, o bom e o mau, o melhor e o pior. Por outro lado, é ofensiva na medida em que reduz toda a Bíblia, constituída por 73 livros, a uma cena de um desses livros, neste caso o primeiro.

A&A - Na sua opinião, os jovens estão menos abertos à Igreja ou a Igreja está mais fechada aos jovens?
Padre João - Os jovens parecem-me abertos a respostas que os satisfaçam e dêem sentido às suas questões (nos homens e mulheres da Igreja nem sempre vejo abertura para os ouvir, para os compreender e para os acompanhar com carinho). Os jovens, por outro lado, também têm muito a dar e a ensinar à Igreja.

A&A – O Sr. Padre João é um padre muito jovem. Como é ser pároco numa cidade, e de uma igreja como a Sé, que, “por norma”, é tão tradicional?
Padre João - Inicialmente foi complicado e notei estranheza em algumas pessoas por ser tão novo, mas neste momento está a ser muito bom: aprendi a ter paciência, aprendi a agir não para agradar às pessoas mas pelas minhas convicções e noto que está a mudar alguma coisa na paróquia e isso vale a pena e deixa-me feliz e realizado.

Entrevista realizada
Ana Queirós, nº 2,
André Machado, nº 5, 10º B
Fotografia: Ana e André

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Entrevista a Maria Júlia Campos

“era bom que houvesse laços de solidariedade, respeito e amizade entre alunos e professores”.
Para uma reflexão sobre o sistema educativo dos nossos dias, resolvemos entrevistar uma professora aposentada que, por motivos familiares, não tem estado muito afastada do ensino.
Professora do Ensino Secundário durante algumas décadas, confessou sentir saudades da convivência com os seus alunos, embora algumas vezes sinta satisfação por já não estar ao serviço. Parece-lhe que o professor já não é visto como o amigo que ajuda o aluno a “crescer” e que muitas vezes este é visto como o “inimigo” que sabe bem ofender. Esta opinião resulta de ocorrências que algumas colegas relatam.
O nome da minha entrevistada é Maria Júlia Campos. O seu local de trabalho foi a Escola Secundária de S. Pedro, onde leccionou História. Quando interrogada sobre a sua idade, respondeu com alguma graça que lhe era impossível responder.
Face à minha expressão de admiração, explicou que tinha duas idades e que não sabia qual declarar: uma concreta, bem visível no seu B.I., nas suas rugas e nos seus cabelos brancos, outra, a que os outros não vêem, mas que ela sente e que a faz esquecer aquela, expressa quer no seu B.I. quer nas suas capacidades físicas. Esta última está muito aquém daquela outra e é a que lhe dá momentos de felicidade, a que a faz apreciar a convivência com os jovens e a leva a ter a opinião de que algumas pessoas da sua idade são umas “chatas”.
Francisca - Ouço nas televisões e vejo títulos nos jornais referindo problemas na Educação. Pode, por favor, dizer-me porque é que a Educação é tão falada hoje em dia?
Prof.a Maria Júlia Campos
- Julgo que há duas razões que me parecem mais evidentes: a pouca autoridade dos professores e o excesso de irreverência dos alunos, que muitas vezes atinge a falta de respeito.
Francisca - Ao curso de medicina continua a ter acesso apenas um reduzido número de alunos. No entanto temos médicos espanhóis, ucranianos, cubanos… a exercer medicina no nosso país. O que pensa desta situação?
MJC
- Parece-me uma injustiça feita aos alunos portugueses. Para o curso de medicina julgo que seria muito útil que houvesse umas entrevistas feitas por psicólogos que pudessem avaliar a existência, ou não, de vocação e a compaixão que devem ter os médicos. As notas de acesso seriam secundárias e não atingiriam o nível elevado que hoje é exigido.

Francisca - Relativamente à sua população, Portugal tem um número mais elevado de universidades (e portanto de cursos) do que os restantes países da Europa. Concorda com esta proliferação de estabelecimentos de ensino superior?

MJC - Não tenho conhecimento profundo sobre este assunto mas, pelo que tenho lido, há centenas de cursos, muitos dos quais levam os licenciados para o desemprego e também ouço dizer que nem todos têm o nível de exigência que seria esperado. Se isto é certo, seria preferível haver menos cursos e menos universidades. Um nível elevado de exigência dá garantias de competência e de trabalho. Disso é exemplo a Universidade Católica.

Francisca - Eu frequento o 10º ano. Até ao 9º ano tive mais de dez disciplinas. A maior parte dos alunos considera que são disciplinas a mais. O que pensa a Sr.ª professora disto?
MJC -
Acho que o aluno actualmente tem uma carga horária e disciplinar exagerada e que poderia ser reduzida em proveito de algumas disciplinas.

Francisca - Os noticiários referem frequentemente casos de indisciplina dos alunos. Por vezes com apoio dos pais… No seu entender, o que seria preciso fazer para impor mais respeito e disciplina nas escolas?
MJC -
Penso que haveria mais disciplina e respeito nas escolas se a estas fosse dada mais autoridade para imporem regras e medidas disciplinares. Estas deviam ser implementadas logo no primeiro ciclo.

Francisca - O que acha do impulso que este governo deu à aprendizagem da informática no 1º Ciclo do Ensino Básico?
MJC
- Fico admirada e acho positivo as capacidades que os miúdos agora adquirem para lidarem com o sistema informático. Todavia, penso que o acesso dos miúdos ao “Magalhães” pode ter consequências negativas e acho prejudicial o uso que os alunos fazem da internet, sobretudo no Secundário. Muitos deles limitam-se a copiar textos sem qualquer espírito crítico.

Francisca - Se estivesse no “activo” neste momento, quais pensa que seriam as suas maiores dificuldades?
MJC -
Vou apenas citar uma dificuldade, com certeza teria outras… A dificuldade seria a falta de respeito por parte dos alunos, a que não me habituei, porque fui sempre respeitada ao longo da minha vida profissional.

Francisca - No Ministério da Educação, sucedem-se os ministros, que acabam por ocupar o seu lugar durante pouco tempo. Qual é a sua opinião acerca do assunto?
MJC
- Uma consequência da sucessiva nomeação de ministros para este Ministério leva a que a política educativa esteja sempre a mudar e não haja na Educação uma continuidade na implementação de medidas que melhorem o sistema de ensino.

Francisca - Se por uns momentos lhe fosse possível legislar e impor duas medidas na área da Educação, o que é que a Sr.ª professora escolheria mudar?
MJC -
Uma medida que eu acho melhoraria o sistema de ensino seria dar mais autonomia às escolas e aos pais dos alunos, o que lhes permitiria escolher professores e fazer algumas alterações nos programas. Outra medida seria a existência de exames nacionais nos fins de ciclo e incentivos para as escolas que obtivessem melhores resultados.

Francisca - Imagine-se a dar um conselho a professores e alunos, imagine que todos a ouviam, o que diria?
MJC
- Eu pediria a ambos que se lembrassem que nas escolas se devem formar homens e mulheres com valores e sentido de responsabilidade, e lembraria que é nas escolas que se prepara o futuro. Uma vez que os alunos passam tantas horas na escola, mais do que com os pais, era bom que houvesse laços de solidariedade, respeito e amizade entre alunos e professores.


Texto: Francisca Campos
Fotografia: Francisca Campos

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Entrevista a um oleiro de Bisalhães

O senhor Cesário Martins é um oleiro residente na aldeia de Bisalhães. Tem um posto de venda de artigos feitos em barro preto de Bisalhães, na Avenida da Noruega, em Vila Real.

Pedro Folgada e Luís Ribeiro:
“Esta arte nunca se aprende, está sempre a aprender-se!” Bom dia, Sr. Cesário Martins. Somos alunos da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, frequentamos o 10º ano. Chamamo-nos Pedro Folgada e Luís Ribeiro. Gostaríamos de o entrevistar, no âmbito da disciplina de Português, acerca da sua actividade. O principal objectivo desta entrevista é conhecer e dar a conhecer esta arte tão apreciada, mas pouco valorizada. Desde já, agradecemos a sua disponibilidade.

Sr. Cesário Martins: Sim senhor, sentem-se aí ao pé de mim, enquanto trabalho. Também vos agradeço o interesse pela arte.
Pedro Folgada: Quando é que começou a exercer este ofício? Sr. Cesário Martins: Foi quando fiz a quarta classe, em 1947. Os meus pais já sabiam esta arte e então ensinaram-ma.
P.F: Então considera a Olaria Tradicional de Bisalhães uma arte…
Sr. Cesário Martins:
É, é sim senhor, uma arte. Mas está a acabar, está em extinção. Não há ninguém que aprenda isto. Sabe, isto dá muito trabalho e depois não há apoio de ninguém e ninguém quer aprender.
Luís Ribeiro: Esta arte é tradição na sua família?
Sr. C.M: É, é uma tradição.
L.R: De onde é que deriva o nome “barro de Bisalhães”?
Sr. C.M: Os antigos dizem que o barro de Bisalhães nasceu em Vila Marim, mas, quando chegou a Bisalhães, ali ficou. Os antigos e os antepassados é que nos contavam isso. Eles até cantavam isso numa quadra: «Vila Marim das panelas, Quintela dos pequeninos, Mondrões dos mal azados, Bisalhães dos bem feitinhos.». Ficou em Bisalhães. Lá não era o lugar original, mas foi lá que ficou. Os outros não lhe deram seguimento e em Bisalhães deu-se. Assim, esta tradição deixou de existir nos outros locais e ficou permanentemente em Bisalhães. Os meus pais, que faleceram com noventa e tal anos, já diziam isso.
L.R: O que significa para si ser oleiro?
Sr. C.M: No tempo em que fiz a quarta classe, os meus pais não tinham possibilidade de me pôr a estudar e ensinaram-me a arte deles. Como acontece quase com todos nós, quando os pais não têm posses ensinam-nos o ofício que têm. Foi o que me aconteceu a mim. Estive nesta arte até à idade de ir para a tropa. Depois vim da tropa e procurei-a porque lhe tenho muita amizade. Esta arte nunca se aprende, está sempre a aprender-se. Fui para a tropa, a olaria não dava nada… “Meu amigo”... naquele tempo era um bocado “pr’ó pesado. Então eu estive ausente durante 30 anos, mas nunca deixei de trabalhar nisto. Sou aposentado da Guarda Nacional Republicana, mas nunca deixei de trabalhar nisto devido à paixão que tenho. Pena é que eu mandei fazer esta roda para ensinar os meus e eles não quiseram aprender, procuraram vida melhor, já a mim não ma puderam dar e a eles já lha deram melhor. Esta arte é bonita mas está a acabar.

P.F: Quais as etapas do fabrico das peças?
Sr. C.M:
Vamos buscar o barro, ele seca ao sol, depois é picado no pio que é uma pedra com um buraco no meio, como a gamela do porco, pica-se ali o barro e depois peneira-se. Leva as “voltas” do pão e depois amassa-se, fica maleável como o que tenho aqui para fabricar as peças. Amassa-se com as mãos que é para retirar alguma impureza que possa ter, pois as impurezas sentem-se com a ponta dos dedos. Depois de a peça estar feita vai para a sombra e mais tarde para o sol e seca. Finalmente é cozido no forno a 800ºC e abafa-se com terra preta durante três, a quatro horas.
P.F: O que é que dá a cor negra ao barro?
Sr. C.M: É a terra e o fumo. Como a louça fica abafada durante três a quatro horas, sem respirar, porque se respirar não coze, adquire a cor negra.

L.R: Que tipo de peças fabrica?

Sr. C.M: Temos o alguidar do arroz que é o “forte” da região, temos a assadeira que é esta que eu estou aqui a fazer, a panelita que é para cozer as batatas e castanhas, temos toda a qualidade, que engloba muitas peças. Temos o pote, a pichorra, a cafeteira para fazer o café, temos as ânforas para pôr flores, potinhos antigos que representam os potes de ferro e tudo tem utilidade.

L.R: Quantas peças fabrica por dia?
Sr. C.M:
As mais fáceis, faço mais, se for mais “ruim”, faço menos. Mas faço sempre uma média de quinze a vinte peças por dia.
P.F: Qual é a sua peça favorita?
Sr. C.M: As minhas peças favoritas são todas, mas há uma que gosto mais de fazer, que é a assadeira.
P.F: Quais são as mais compradas?
Sr. C.M: São a assadeira e o alguidar de arroz.

P.F: Tem encomendas?
Sr. C.M: Tenho, tenho várias e ainda eu rejeito muitas, porque não cobre o gasto. Até tenho muitas cartas para ir fazer feiras. Mas que adianta? Ninguém se responsabiliza pelo transporte e eu não vou com a minha carrinha por aí e por ali a perder e a partir peças. Mas também já participei em muitas feiras. Já fui muitas vezes às escolas, a Marco de Canaveses, à Livração e até já fui ali ao Liceu. Os alunos como vocês já têm mais consciência, mas os mais novos só querem é brincar. Dava resultado por exemplo um de nós ir a uma escola e de entre dez, vinte ou trinta ou cinquenta ou cem alunos, seleccionar aqueles interessados em aprender esta arte.
P.F: Costuma trabalhar sozinho ou também trabalha em equipa?
Sr. C.M: Sozinho, sempre sozinho. Como é manual, trabalha-se sozinho. Não temos ajudantes nenhuns.

L.R: Que ferramentas utiliza no fabrico das peças?
Sr. C.M: Utiliza-se a “sega”, que é uma corda de uma guitarra que corresponde à nota Mi, a roda de oleiro, que é constituída pelo tabuão, umas cruzes de madeira para suportar o tabuão e é tudo feito em madeira de freixo e castanho. Temos muitas ferramentas e são boas, são de pau de amieiro, são os fanadoiros que servem para alisar as peças e uso também os trapos de pano para as alisar. Para as trabalhar uso uma navalha.


L.R: Já foi premiado pelo fabrico das peças?
Sr. C.M: Já, já, mas não foi agora. Foi antes do 25 de Abril de 1974. Agora os prémios são só para os “grandes”, mais conhecidos.
L.R: Acha que o seu posto de venda está bem localizado?
Sr. C.M:
A localização não é má. Nunca fomos assaltados. Mas apoio, não temos, a não ser o actual Presidente da Câmara de Vila Real que nos mandou construir estes barracos. Mas não têm condições, nem sequer têm luz.

P.F: Para além desta loja, costuma utilizar meios ambulantes de venda?
Sr. C.M: Não, mas utilizo quando vou “ali ao São Pedro”. E às vezes, um amigo meu leva-me para Stª Marta de Penaguião para as feiras.

L.R: Em que épocas é que vende mais?
Sr. C.M:
Ao princípio estávamos à espera do Verão, mas actualmente não há grande diferença do Verão para o Inverno. Os turistas vêm praticamente sem dinheiro e dizem às mulheres para gastar o dinheiro delas, para eles não gastarem o deles.

P.F: Pensa que esta arte tradicional transmontana é viável nesta época moderna?
Sr. C.M:
Sim, acho que sim, acho viável nesta época moderna. Se não for isto, o que é que temos aqui em Vila Real? E é moderna. Acabando isto, Vila Real não tem nada. Mas a vida está cara...
L.R: Quais seriam as suas sugestões para a promoção do artesanato regional, em especial do barro de Bisalhães?
Sr. C.M: A minha ideia era boa, mas seria melhor se houvesse apoio de alguém. Assim, não há apoio de ninguém, não se pode fazer nada. Eu não vou sozinho fazer a evolução, não é?

P.F: Gostaria então de nos dizer qual era a sua ideia?
Sr. C.M: A minha ideia era não deixar morrer isto, como na Casa do Douro que caíram os muros e andam agora a levantá-los que é para não acabar o vinho do Porto. E aqui devia ser a mesma coisa.
P.F: E para que não acabasse esta arte, como é que iria promovê-la?
Sr. C.M: Montar uma escola, pagar aos alunos e cativá-los de modo a aprenderem a arte, porque eles também não podem andar a aprender e não ganhar nada. No fundo, formar uma escola para o ensino da olaria, porque se eu não tivesse paixão por isto, não estava aqui.

L.R e P.F: Muito obrigado, Sr. Martins pela sua simpatia, disponibilidade e esclarecimentos, que nos ajudaram a compreender e a conhecer melhor esta arte. Desejamos-lhe boa sorte para o futuro.
Sr. C.M: Obrigado eu, voltem sempre que quiserem.



















Docente: Profª Adelaide Jordão
Trabalho realizado por:
Luís Miguel Cardoso Ribeiro, Nº 20, 10ºB
Pedro Miguel da Costa Folgada, Nº 23, 10ºB
30 de Janeiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Entrevista

O Blogue "À Procura" irá publicar uma série de entrevistas realizadas por alunos do Ensino Secundário, no âmbito da disciplina de Português. Agradecemos a vossa visita.

Entrevista com Marta de Vasconcelos Leite
"POLÍTICA PARA UM JOVEM”
Numa época em que os jovens consideram a política uma actividade desmotivante, descobrimos alguém que se interessa e está bem por dentro do assunto. Marta de Vasconcelos Leite tem 17 anos e já é membro da Comissão Política Concelhia de uma Juventude Partidária.

Nós: Marta, com que idade é que começou a interessar-se pela política?
Marta: Filiei-me numa Juventude Partidária aos 14 anos, que é a idade mínima exigida. No entanto, só alguns anos mais tarde é que me surgiu o verdadeiro interesse pela actividade democrática e partidária, apesar de sempre ter tido uma ideologia muito fomentada por familiares mais próximos.

N: Como é que concilia a sua vida política com a sua vida escolar?
M: Nem sempre é fácil, porque tenho que cumprir com as responsabilidades que assumi, mas tento sempre entender como principal prioridade os estudos, o que por vezes significa faltar a algum compromisso no âmbito da política. O essencial para esta conciliação é muito empenho e dedicação nos projectos em que estou envolvida, o que, por vezes, implica abdicar de alguns aspectos da vida pessoal.

N: Actualmente exerce alguma actividade política, quer a nível escolar, quer a nível extra-curricular?
M: Actualmente ocupo o cargo de Vice-Presidente da Associação de Estudantes, que não é exactamente uma actividade política, mas que está inserida no Movimento Associativo Juvenil que, a meu ver, é a base para uma vida cívica activa. Fui recentemente eleita deputada da Escola Secundária/3 Camilo Castelo Branco para a Sessão Distrital do projecto Parlamento dos Jovens, uma parceria entre a Assembleia da República (AR) e o Instituto Português da Juventude (IPJ). E sou membro da Comissão Política Concelhia de uma Juventude Partidária.

N: E o que acha desta parceria entre a AR, o IPJ e as escolas de todo o país?
M: Acho que é um projecto muito importante, na medida em que funciona como um incentivo aos jovens para a actividade política, para a discussão e para o debate, fundamentos da nossa democracia. No entanto, o facto de, grosso modo, as nossas propostas não serem alvo de discussão na AR, tem contribuído para a ineficácia deste projecto, no que diz respeito à máxima “Política para os jovens, pelos jovens”. O mesmo acontece, por exemplo, com os Concelhos Municipais da Juventude, cuja função consultiva nunca é respeitada, e onde a participação dos jovens é, por isso, diminuta. Relativamente ao Parlamento dos Jovens, o preconceito de que as nossas ideias não são escutadas tem contribuído para os fracos níveis de participação a nível escolar.

N: Que acontecimento da política mundial a marcou mais nestes 17 anos de existência?
M: O 11 de Setembro de 2001 - cujas consequências são prolongadas e evidentes a nível internacional: foi a prova da vulnerabilidade da única super-potência mundial e consequente violação dos Direitos Humanos com a prisão de Guantanamo - e o início da Guerra no Iraque. Também me marcou a eleição do Presidente Obama, que trouxe um fôlego de esperança ao mundo livre e às democracias.
N: Por que acha que a política é importante para os jovens?
M: Acho que é importante termos uma juventude informada e participante, particularmente a nível político, porque no fundo são os jovens que são os políticos de amanhã e são os responsáveis pelo progresso do seu país e no Mundo.
N: Para si, quais são as principais causas do desinteresse dos jovens pela política?
M: A nível nacional, a mediatização da política e o aumento do número de escândalos, explorados por uma comunicação social mesquinha, que têm contribuído para uma descredibilização da classe política e o consequente desinteresse da juventude e do eleitor em geral. A falta de formação a nível escolar, promovida no período do Estado Novo, mas que já não se justifica, explica também a falta de cidadãos informados e interessados na regência do país.

N: O que acha da actual política nacional?
M: Acho que Portugal deu um passo muito importante com a assinatura do Tratado de Lisboa. Caminhamos para uma Europa mais unida, mais coerente , mais coesa e mais capaz de assumir uma posição competitiva no quadro das potências mundiais. É importante para um país periférico como Portugal estar inserido num projecto progressista como este. A nível nacional, é importante realçarmos que temos uma relativamente jovem democracia e, nesse âmbito, podemos nem estar perto do ideal utópico de nação, mas muitos foram os progressos nas últimas quatro décadas.

N: Tem algum projecto político para o futuro?
M: Num futuro próximo, tenho as eleições para a Federação Distrital de Vila Real da minha Juventude Partidária, bem como a sessão distrital do Parlamento dos Jovens. A longo prazo, não pretendo fazer da política vida, mas quero sempre a política na minha vida. Por outras palavras, encaro a política como o meio essencial para uma vida cívica activa e considero que ter ideias formuladas relativamente à política nacional e internacional é um direito e simultaneamente um dever dos cidadãos.

Texto e fotografia (Marta Leite e Bárbara Fontes num Comício/ Marta Leite num momento formal da entrevista)
Bárbara Fontes, nº8,10ºB
Pedro Baptista, nº22, 10ºB

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Concurso - Jogos Didácticos

( Clicar no texto para aumentar)

Poema Geométrico

Estava um dia, sisudo, talhado e sempre certeiro,
O nosso amigo Quadrado
Perdido de amores por aquela
Que se soube, chamar-se-ia
A doce Trigonometria!
O Quadrado, coitado, andava,
Suspirando em rectas infinitas,
De tão enamorado,
Arredondavam-se-lhe os cantos!
E os ângulos, coitados!
De rectos, já pouco tinham!
De resto, carecia de coragem,
Para a sua amada se declarar
Mas era certo, concerteza,
Que por ela, nada temia,
Tudo poderia enfrentar.
Juraria naquele lugar,
Enquadrar todos os Círculos,
Esses libertinos! Sempre a girar!
Cansado que estava de tormentos,
Com fúrias de gritar aos 7 ventos,
Procurou se aconselhar.
O Rectângulo, sempre amigo,
Confortou-o, e encorajou-o,
Com uma palmadinha nos ângulos
Aconselhou-o a encontrar Trigonometria
-“Quadrado meu rico amigo,
Era justamente o que eu faria!”
E o Quadrado lá foi,
Aprumado e de cantos afiados,
Mas o coitado foi infeliz,
É que a Trigonometria,
Segundo se diz,
Só gostava de Triângulos!

Cristina Freitas
In No Sótão do Pensamento II

Enviado por António Teixeira

Prémio Camilo - Participa!


sábado, 30 de janeiro de 2010

Frescos de Memória - António Fortuna

Pormenor do espectáculo de dança a finalizar a cerimónia da apresentação do livro.
Sem dúvida, uma obra sinestésica.

Enquanto o público pestisca, o autor rabisca.
O autor das ilustrações.
As palavras e as cores entrelaçadas.

Dr. Henrique Morgado na sua prelecção.

Um objecto de memória.
Drª Ana Paula Fortuna na sua prelecção.

A mesa das letras e a assistência de outras artes.


Um sala bem preenchida.

Tal como anunciado, realizou-se no dia 27 a apresentação do livro "Frescos de Memória", de António Fortuna. Ana Paula Fortuna e Henrique Morgado responsabilizaram-se pelo comentário à obra. A Directora da escola, Dª Fátima Rodrigues, congratulou-se com esta iniciativa que incluiu, no átrio principal, uma breve trecho de bailado por uma escola especializada de Vila Real . A terminar, foi servido um porto-de-honra, na biblioteca.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

ARTE e MATEMÁTICA

Criatividade, beleza, universalidade, simetria, dinamismo são qualidades que frequentemente usamos quando nos referimos quer à Arte quer à Matemática. Beleza e rigor são comuns a ambas. A Matemática tem um notável potencial de revelação de estruturas e padrões que nos permitem compreender o mundo que nos rodeia. Desenvolve a capacidade de sonhar! Permite imaginar mundos diferentes, e dá também a possibilidade de comunicar esses sonhos de forma clara e não ambígua. E é justamente esta capacidade de enriquecer o imaginário, de forma estruturada, que tem atraído de novo muitos criadores de Arte e tem influenciado até correntes artísticas. Como a história demonstra, a Matemática evolui muitas vezes por motivações de ordem estética. Como dizia Aristóteles "Os filósofos que afirmam que a Matemática não tem nada a ver com a Estética estão seguramente errados. A Beleza é de facto o objecto principal do raciocínio e das demonstrações matemáticas", e Hardy afirmava que "O matemático, tal como o pintor ou o poeta, é um criador de padrões. Um pintor faz padrões com formas e cores, um poeta com palavras e o matemático com ideias. Todos os padrões devem ser belos. As ideias, tal como as cores, as palavras ou os sons, devem ajustar-se de forma perfeita e harmoniosa.”


António Teixeira

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FRESCOS DA MEMÓRIA - ANTÓNIO FORTUNA


Amanhã, 27 de Janeiro, às 21.30h, no auditório da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, será lançado o livro Frescos da Memória, de António Fortuna. Esta obra, editada pela Tartaruga, contém aguarelas de Abel Fortuna, e será apresentada por Ana Paula Fortuna e Henrique Morgado.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Concurso “A árvore de Natal da Poesia" - Entrega de prémios

Na quarta-feira, dia 20, às 12.45 horas e na quinta-feira, dia 21, às 20.30 horas, na Mediateca, realizou-se a entrega dos prémios do concurso “A árvore de Natal da Poesia” sobre o tema “Sentir Natal”. Na primeira sessão, a Directora da Escola, Dra. Fátima Rodrigues, entregou os prémios e os certificados aos alunos do ensino diurno. Na segunda sessão o Dr. Dino, em representação da direcção da escola, entregou o prémio atribuído ao ensino diurno.
Nas duas sessões alguns dos participantes, professores, alunos/formandos, elementos da comunidade, leram textos poéticos nomeadamente de A. M. Pires Cabral, Rui Pires Cabral, António Fortuna e Paulo Reis Mourão, ligados à escola como ex-alunos, ou como professores. Foi ainda lembrado o escritor António Cabral.
Na última sessão esteve presente o autor António Fortuna que, juntamente com o público, deu voz a alguns dos seus textos poéticos.
A encerrar, a formanda Eva Silveira cantou de improviso, com voz melodiosa, o texto da aluna que obteve uma Menção Especial.
Formandos e formadora LC3, curso EFA B3

Palestra sobre arbitragem no futebol




Na passada sexta-feira, dia 15, na Mediateca realizou-se um encontro com a finalidade de entrevistar gente ligada à prática de arbitragem de futebol. A entrevista foi preparada, divulgada e realizada pela equipa que dinamiza aquele espaço às sextas-feiras de manhã. Os entrevistados, um árbitro em início de actividade, aluno da escola, José Luís, e um observador, professor da escola, Dr. Luís Ventura, que cessou recentemente a sua actividade como árbitro, responderam às várias questões quer da mesa, quer do público, ora narrando acontecimentos, ora esclarecendo situações, ora dando opinião, consoante a natureza da pergunta.

Rosa Canelas

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ajuda ao Haiti

Ajuda ao Haiti
AMI

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