Divulgação informativa e cultural da Escola Secundária/3 Camilo Castelo Branco - Vila Real

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Exposição de Presépios






De 20 de novembro a 17 de dezembro de 2013
Biblioteca da Escola Secundária Camilo Castelo Branco
Via Real

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

 MENSAGEM DA DIRETORA GERAL DA UNESCO, POR OCASIÃO DO DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

Este ano, o Dia Mundial da Filosofia é guiado pela temática “Sociedades Inclusivas, Planeta sustentável”. Este dia, é um convite para repensar as condições que permitam a inclusão e a sustentabilidade das sociedades que são amplamente diversas e cada vez mais interligadas entre si e com o Ambiente.
Globalização, atividade humana, o rápido desenvolvimento de novas tecnologias e das biotecnologias estão a desbloquear as fronteiras entre as ordens sociais, humanas e naturais. A ação humana é cada vez mais o principal motor de evolução do sistema planetário – abrindo o que se tem vindo a chamar a era do “Antropóceno”. O Ambiente não está mais completamente independente de nós – as nossas ações moldam-no. Pelo contrário, os danos ambientais pesam na construção das nossas sociedades, nos modelos de migração e de cooperação. Neste mundo de muitas ramificações, o desenvolvimento sustentável depende em primeira mão na prosperidade partilhada entre Estados e entre Sociedades. Num mundo de diversidade, a inclusão é construída mais do que nunca com base no diálogo e respeito pela justiça, dignidade humana e direitos humanos. Esta foi a mensagem de Swami Vivekananda, cujo 150º aniversário estamos a celebrar: “Levantem-se à custa do outro! Eu não vim a este planeta para isso!
Nós estamos cada vez mais conectados com os nossos ambientes naturais, os quais estão interligados entre si. Este reconhecimento deve inspirar novas políticas públicas, incluindo políticas sociais. Esta intuição foi expressa por Paul Ricouer, nascido há um século atrás: “Se nós não falássemos sobre o mundo, sobre o que falaríamos?” Em resposta a esta interdisciplinaridade radical, a Cimeira Rio+20 reclamou uma maior construção de políticas integradas que sejam capazes de responder aos aspetos do desenvolvimento, a nível económico, social e ambiental. Respostas a estes desafios não virão somente do desenvolvimento técnico ou dos compromissos políticos ou económicos. Quanto mais complexos forem os riscos, maior a necessidade de garantir que através das escolas e dos Media, cada indivíduo cultive um pensamento crítico e um espírito comunitário desde a sua infância. Estes desafios estão no centro do Fórum Mundial da Ciência, que ser irá realizar no Rio de Janeiro, em 2013 e do Relatório Mundial da UNESCO sobre Ciências Sociais intitulado “Changing Global Environments”. Neste mundo de múltiplas fraturas, a Filosofia desempenha um papel indispensável para pensar e agir para uma maior dignidade humana e harmonia. A Filosofia relembra-nos que os recursos do nosso pensamento são de facto os únicos recursos renováveis que temos. Hoje, através da Rede UNESCO, apelo a todos os profissionais, autores e professores no mundo inteiro para libertarem este poder.
  

Irina Bokova

Arte contemporânea

Há cerca de uma semana fui tomar café com um amigo que já não via há muito, muito tempo. Esse meu amigo é um grande artista, é escultor. Assim, depois do café, fomos ver a nova exposição do Museu de Arte Contemporânea.
Logo à entrada estava uma escultura de chapa vermelha de grandes dimensões; percebi que era uma interpretação da forma humana e achei piada; acerca desta obra consegui mesmo conversar com o meu amigo. Os nossos bilhetes também eram engraçados; muito coloridos e o tipo de letra simples combinava realmente na perfeição. Na primeira sala estavam telas gigantescas coloridas com vários tipos de tinta: acrílico, carapinha e até aquela tinta usada para pintar as estradas. Eu gostei bastante de alguns quadros, pelas suas cores ou porque me sugeriam algo, apesar de na prática serem apenas tiras horizontais e verticais sobrepostas. Lembro-me de um que detestei mesmo, por não simpatizar de todo com a combinação de cores. Mas naquela sala, sem dúvida, havia arte. Foi quando passámos à sala seguinte que as minhas ideias se começaram, de certo modo, a confundir. Começava com um tricô gigantesco e quadrado de caniça em vermelho encaixilhado e depois passava-se abruptamente às cores neutras. Diante dos meus olhos estava “uma obra de arte”... Eram quatro panelas de pressão numa prateleira saliente da parede à esquerda de uma mais elevada que suportava quatro bolas de basquetebol. Tive que perguntar ao meu amigo, que até então não tinha pronunciado uma palavra e estava completamente absorvido, que raio de coisa era aquela. E aí percebi que eu era um doutor insensível... conservador e preconceituoso...O meu amigo artista interpretou aquela obra. O trabalho da mulher (as panelas de pressão) tem menos relevância que o divertimento do homem (simbolizado pelas bolas de basquetebol). Seguiu-se a isto uma tela branca com um círculo azul pintado no centro. E uma tela branca com um círculo cor-de-rosa pintado no centro. E uma tela branca com dois círculos amarelos pintados no centro. E uma tela branca. Ainda me esforcei por tentar interpretar... Não perguntei nada ao meu amigo e vim para casa pensar no assunto, rever o conceito de arte. Comecei por ler que ‘arte’ “tem como raiz etimológica a palavra grega techne e o conceito latino ars, que designam a técnica, a perícia, assim como a criação artística, a procura do belo” - então dois círculos pintados num amarelo que nem era nada de especial no centro de uma tela branca não são arte, uma vez que o artista não atingiu o belo... Depois li que “a arte contemporânea alterou a visão tradicional do belo e do feio, diluiu as fronteiras e as definições”, que “esta indeterminação abriu as portas ao diálogo e à convivência entre perspetivas consideradas incompatíveis, transformando a arte num território de absoluta liberdade”. Por fim li a teoria formalista, que “abandona a ideia de que há uma característica comum às diferentes formas de arte. Nelas existe, ao invés, uma característica que marca todas as experiências artísticas: a emoção estética”. “Uma obra é arte se, e só se, provocar emoções estéticas”. Clive Bell, o crítico de arte inglês, era um grande defensor desta teoria. Bell propõe que “é relevante apenas o objeto para avaliar se este é uma obra de arte ou se é esteticamente valioso”. Por exemplo, o motivo de uma pintura é irrelevante para a avaliar esteticamente. Também a contextualização histórica ou o conhecimento da intenção do artista são irrelevantes para a apreciação nas artes visuais, para Bell e para mim. Afinal, penso também que “o que provoca emoção estética é a articulação feita pelo artista das formas, das linhas e das cores, e não a temática por si escolhida”.
Quanto aos quadros dos círculos, não gosto muito deles.

Nota: as citações foram retiradas de Amorim, C. e C. Pires (2013), Clube das Ideias, Filosofia 10º ano, ensino secundário. Areal Editores, Porto.

15.11.2013
Mafalda Azevedo Perdicoúlis

Nº 20 . 10ºB

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Exposição de Fotografia de Maurício Penha na Biblioteca

Exposição a Terra e a Gente

É hoje inaugurada, pelas 18 e 15 minutos, a exposição de fotografia de Maurício Penha. Estão patentes ao público 24 fotografias a preto e branco que retratam o quotidiano rural transmontano nas décadas de quarenta e cinquenta do século XX.
Esta iniciativa está inserida no plano de atividades da biblioteca, numa  parceria  da Fundação Casa Museu Maurício Penha,   livraria Traga- Mundos e  Círculo Cultural da UTAD.
Visite - a !






Texto e fotos: João Costa

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

UNESCO 2014 - Ano Internacional da Agricultura Familiar





O lançamento oficial terá lugar a 22 e novembro, na Sede das Nações Unidas.

Poderão obter mais informações no endereços:

DIA MUNDIAL DA CIÊNCIA PARA A PAZ E O DESENVOLVIMENTO

MENSAGEM DA DIRETORA GERAL DA UNESCO, POR OCASIÃO DO DIA MUNDIAL DA CIÊNCIA PARA A PAZ E O DESENVOLVIMENTO

10 DE NOVEMBRO 2013

Hoje, num mundo de rápidas mudanças, num planeta sob pressão, nós precisamos de mais Ciência, nós precisamos de mais cientistas. A Ciência é uma força que junta as pessoas e as leva a unir esforços para alcançar o conhecimento. A Ciência é o nosso melhor aliado para fazer frente às consequências das alterações climáticas e suscitar junto de todas as sociedades, a inovação que hoje todas necessitam.

Esta é a mensagem da UNESCO para o Dia Mundial da Ciência e conduz o nosso esforço, visando demonstrar todo o potencial das ciências ao serviço da paz e desenvolvimento.

Neste Ano Internacional de Cooperação no Domínio da Água, focamo-nos sobretudo, na partilha do conhecimento, dos dados e da inovação em matéria de Hidrologia. A água é o nosso mais precioso recurso, essencial à vida e ao desenvolvimento humano. Existe água suficiente no mundo – o nosso desafio é partilhá-la e geri-la de forma sustentável, em conjunto. Nós acreditamos que partilhando dados, conhecimento e inovação, esta será a chave para uma gestão sustentável da água. A cooperação traz novas ideias, catalisa soluções inovadoras e impulsiona novas formas de trabalhar. Os cientistas ao recolherem e disseminarem dados, transformam informação em conhecimento, de forma a construírem políticas fortes que beneficiem todos, ligando a Ciência de forma mais estreita com a política, e este é o objetivo do novo Conselho Consultivo Científico, lançado pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Senhor Ban ki-Moon, ao qual a UNESCO deverá dar um forte impulso.

A cooperação no domínio da água não é somente uma questão técnica ou científica. É também apoiar os direitos humanos, a prevenção de doenças, a promoção de igualdade de género e a luta contra a pobreza. Fundamentalmente, trata-se essencialmente de consolidar as fundações para a paz, através da cooperação entre Estados e entre regiões. Estes objetivos guiam a UNESCO no seu papel de agência líder na dinamização do Ano Internacional de Cooperação no domínio da Água, em nome da ONU – Água.

Juntos, continuaremos a reforçar a ligação entre Ciência e Política, a fim de tirar melhor partido da cooperação científica como força para a paz e o desenvolvimento.

Os recursos hídricos ignoram as fronteiras – assim a nossa cooperação deverá ser conduzida pelo espírito da solidariedade. Juntos, nós poderemos plenamente retirar o proveito de todo o potencial da água, para reforçar a dignidade humana e construir um futuro melhor para todos.

Esta é a mensagem apresentada pela UNESCO para este dia.

Irina Bokova





quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Biblioteca - Exposição de instrumentos tradicionais portugueses

Realizou-se ontem, dia 5 de novembro, na biblioteca da escola, uma exposição de instrumentos musicais tradicionais, no âmbito da visita dos parceiros do projeto Comenius.





terça-feira, 29 de outubro de 2013

Filipe Pinto vence prémio da MTV Portugal

Parabéns, Filipe Pinto,
e boa sorte para a próxima etapa!




Filipe Pinto na escola, em 11-1-2013.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Projeto Plast&Cine 2013 - Vida e Obra de Júlio Pomar

Projeto Plast&Cine 2013 - Vida e Obra de Júlio Pomar

Exposição em Lamego, 18 e 19 de outubro de 2013



Fotos: Nélia Miranda

TRABALHO DAS TURMAS A|C, DO 7º ANO DE ESCOLARIDADE
ESCOLA SECUNDÁRIA CAMILO DE CASTELO BRANCO – VILA REAL

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Dia Mundial da Alimentação



O “Dia Mundial da Alimentação” foi comemorado na Escola Sec/3 Camilo Castelo Branco,  no dia 16 de outubro, através da dinamização da atividade “Alimentação inteligente”, promovida pela Unidade de Cuidados na Comunidade Vila Real I. O evento teve como objetivo sensibilizar a comunidade escolar para a importância de uma alimentação inteligente (económica, saudável e equilibrada) e valorizar competências técnicas e de criatividade com vista à promoção de estilos de vida saudáveis. Os alunos do 9º ano foram convidados a participar com trabalhos inéditos, feitos com recurso a técnicas diversificadas, tendo como fonte de inspiração o Manual da Direção Geral de Saúde (2012) “Alimentação inteligente: coma melhor, poupe mais”. Os trabalhos foram expostos no átrio principal da escola e foi montada uma mesa com fruta da época, disponível para ser consumida pela comunidade escolar ao longo do dia. Posteriormente, os trabalhos apresentados foram entregues aos Enfermeiros da Equipa de Saúde Escolar, de forma a integrar uma exposição itinerante por diversas instituições da cidade. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Apresentação de "Os Idiotas", de Rui Ângelo Araújo, na Traga-mundos

                                                   (Clique para aumentar)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Comemoração da Semana Mundial do Aleitamento Materno

Entre os dias 7 e 11 de Outubro realizou-se uma Exposição de trabalhos artísticos dos alunos, para assinalar a Semana Mundial do Aleitamento Materno. Esta iniciativa da escola, dinamizada pelo Grupo de Artes Visuais, em parceria com a UTAD, esteve patente ao público no Centro Comercial Dolce Vita Douro. 
Neste momento,  encontram-se expostos no espaço da escola alguns trabalhos que não estiveram presentes na amostra.

Trabalho da instalação exposta no C. Comercial Dolce Vita Douro.
Foto: Alcina Gonçalves

Trabalhos expostos na escola





Fotos: João Costa

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

D. Manuel Linda - Bispo das Forças Armadas

D. Manuel Linda, ex-professor na Escola Secundária Camilo Castelo Branco e colaborador no Boletim Cultural,  é o novo Bispo das Forças Armadas. O agora Bispo Auxiliar de Braga vai substituir no cargo D. Januário Torgal Ferreira, que resignou por ter atingido os 75 anos de idade.
Natural de Resende, D. Manuel Linda foi ordenado padre em Vila Real em 1981. Em 2009, foi ordenado Bispo Auxiliar de Braga por Bento XVI.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Poço



            Ali está ele, perto do meu quintal, o poço, que dizem não ter fundo…
       Debrucei-me e vi escuro, apenas. Não queria atirar uma pedra. Era crucial, para mim, a curiosidade, aquele desejo de saber e ao mesmo tempo não saber…afinal, a curiosidade matou o gato…serei eu o gato? Ou a curiosidade que o matou? Infinitas possibilidades de alguma coisa acontecer… A minha efémera vontade, o meu desejo desistente, o meu cínico sorriso, a cicatriz marcada nos meus olhos com a intenção de mergulhar naquele poço sem fim…
       A cripta do meu coração esconde as vontades mais obscuras e proibidas, esconde-as do amor, como se fosse ácido para as mesmas. Quem me dera poder escorraçar o pensamento e a necessidade de saltar para aquele poço, só para ver se realmente não acabava! Quero que ele acabe? Talvez não…talvez ponha fim à curiosidade que me corrói por dentro, que me come viva, como se estivesse com fome.
        O espectro do poço assombrava-me durante a noite, fazia-me arrepiar até aos ossos, estes que não se sentem satisfeitos estando neste corpo. Comecei a estrebuchar. Maldito poço, maldito gato, maldita cripta!... Cansei-me, por fim. Aquela obstinada curiosidade faz acontecer o eclipse de tudo, ficando apenas uma coisa…aquela cavidade aberta no solo, que me atormenta.
       Levantei-me, pensativa, e caminhei até ao local nunca esquecido. Que escuro…e se o mundo fosse sugado para lá e ficasse retido? Sinceramente não me importava que isso acontecesse, porém continuava sem saber o que estaria lá dentro nas profundezas pretas que ainda me chamam, tentam e provocam.
       Os meus olhos reluziam, o gato espreitava com os olhos verdes e pelo preto, o meu coração acelerava devido à ansiedade, e então saltei…
Joana Carvalho, nº14,  8ºE       
08/10/13


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ramos Rosa

Árvores



O que tentam dizer as árvores
No seu silêncio lento e nos seus vagos rumores, 
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência, 
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade. 
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes. 
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus 
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

António Ramos Rosa

Exposição de Escultura de Maurício Penha


sábado, 21 de setembro de 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

À conversa com Mário Cláudio



Mário Cláudio foi o convidado da quarta edição de”Na Minha Terra Cabe o Mundo Todo”, evento promovido pela ACARF e pela Associação Mar Uno, iniciava que bem por objetivo homenagear um escritor/artista da língua portuguesa e promover o contacto entre os autores e o público. Dando continuidade à tradição, O Forjanense esteve à conversa com o escritor Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nascido a 6 de novembro de 1941, no Porto, que acedeu a partilhar com os nossos leitores a sua experiência pessoal e de escritor.


O Forjanense (OF): Mário Cláudio apresenta uma tendência para “biografar”. Permita este início de conversa mais biográfico. Rui Manuel Pinto Barbot Costa fez o curso de Direito, mas advogou pouco tempo. O que o levou a escolher este curso? Por que razão mudou a sua orientação profissional?


Mário Cláudio (MC): A escolha de Direito não foi propriamente uma escolha minha, foi mais uma escolha familiar. Na altura era muito difícil aos jovens determinarem o seu futuro em termos profissionais, pois no final do liceu havia uma bifurcação de carreiras: ou ia para Ciências ou para Letras, que era aquilo a que eu estava mais propenso, que necessariamente conduziam ou a um curso de Filosofia ou Literatura da Faculdade de Letras, ou ao curso de Direito. E, nessa altura, a questão que os meus pais me colocaram foi que o curso de Letras conduzia necessariamente ao ensino, que na altura não era uma carreira muito promissora, e se tirasse o curso de Direito podia ter um futuro mais animado, mais proveitoso em termos financeiros, etc. Deixei-me influenciar por isso, fui para o curso de Direito. A meio ainda tive várias hesitações, pensei várias vezes em desistir, pensei ir para o curso de Clássicas, que era o curso que eu gostava de ter tirado porque me interessava o latim e o grego. Mas não foi possível, não porque os meus pais me impusessem isso, mas porque eu sabia que qualquer decisão minha nesse sentido ia ser um pouco penosa para o meu pai. Levei o curso de Direito até ao fim, classifiquei-me relativamente bem e continuei a cultivar as letras noutros espaços, nas horas vagas. Só depois abracei definitivamente aquilo que hoje posso chamar uma carreira, uma carreira na literatura. Entretanto, acabei por me diplomar como bibliotecário-arquivista, fiz o mestrado na Universidade de Londres, que possibilitou uma espécie de ponte entre o Direito e a Literatura. E depois foi só a Literatura, embora tivesse trabalhado até à reforma como técnico superior no Ministério da Cultura, sempre ligado à área do livro, da atividade literária.

OF: Quando surge “Ciclo de Cypris”, em 1969, aparece com o pseudónimo Mário Cláudio, que mantém em toda a sua obra. Porquê a necessidade desta identidade? Corresponde a uma orientação literária ou é um nome meramente casual?

MC: A escolha do nome é casual, não há nenhum segredo. A razão pela qual escolhi um pseudónimo foi porque, na altura em que publiquei o meu primeiro livro de poesia, eu suponha ou admitia que podia ter uma profissão na área do Direito, como advogado. Pensei nisso porque muita gente me dizia que um advogado não era propriamente muito bem quisto, bem visto, porque o mundo jurídico exigia, nessa altura, um espírito pragmático, que não joga muito bem com a experiência poética. Eu optei por utilizar um pseudónimo, só que o pseudónimo atirou-se a mim e transformou-se no meu nome.

OF: Li numa entrevista estas palavras: “Tenho memória de mim a escrever desde que sei escrever”. Até quando recua essa memória e quando é que o ato de escrita se tornou uma necessidade de vida e orientação profissional exclusiva?

MC: Recua a uma fase muito infantil. Lembro-me que o primeiro texto de ficção que escrevi foi um texto muito curto, de que não guardo memória, em torno de figuras que tinham sido inspiradas pela leitura de livro “O Feiticeiro de Oz”, na moda na classe média a que eu pertencia e que deu origem a um filme e seria como o Harry Potter de hoje. A partir daí escrevi um texto, um pequeno conto, e é aquilo que eu recordo como a mais antiga experiência de escrita, tinha 9 ou 10 anos. Mas há uma outra fase, por volta dos 13/14 anos, em que me lembro de ter escrito um poema que ainda conservo. Senti que esse poema era o início de uma atividade de escrita, que poderia ser profissionalizada ou não, que podia ser ou não transformada numa carreira, mas que eu nunca mais abandonaria. Senti isso numa tarde de fevereiro quando escrevi o poema, tenho perfeita noção disso.

OF: Essa primeira obra de 9/10 anos não foi publicada?

MC: Não foi publicada e foi perfeitamente espontânea. No entanto, durante o período da escola primária, fui sempre muito estimulado porque os professores achavam que as minhas redações eram muito boas, eram excecionais em relação àquilo que as outras pessoas faziam, tinham sempre um elemento muito inovador. Digamos que me projetava nelas, inseria nelas muito a minha natureza, pois empenhava-me naquilo que fazia quando se tratava de redação, o que não acontecia com outros exercícios, claro, designadamente com a aritmética e as outras coisas todas, que eram feitas mais por obrigação.

OF: Há quem afirme que tem “uma prática quase monástica no exercício da escrita”. Isto deve-se à imposição do trabalho de escrita ou apenas à sua forma de ser, à necessidade de introspeção?

MC: A área monástica foi sempre para mim uma atração e senti que esse caminho correspondia a uma exigência de rigor da minha parte, de austeridade e sobretudo de disciplina, disciplina no quotidiano, e é aquela que eu procuro manter na minha escrita. Tenho uma prática de escrita diária, com horas certas ou mais ou menos certas. Quando não a cumpro, sinto-me (como suponho que se sentem os monges) um pouco culpabilizado. Procuro obedecer a isso, estar presente nessa exigência que eu faço a mim próprio. Depois, na própria escrita em si, procuro conciliar sempre uma certa sensualidade mística. Abracei a escrita como um projeto de vida, em que as emoções deviam estar permanentemente enquadradas num determinado tipo de racionalidade. E pensei sempre que a minha escrita tinha de ter essa tensão entre o conteúdo e a forma, que é, no fundo, a tensão da vida, a tensão entre a sensualidade da vida, aquilo que nós vive-mos diariamente a nível dos cinco sentidos, e a consciência da existência de um outro, uma transcendência, um absoluto, que faz com que isso nos apareça como uma ilusão ou como uma limitação, e nos indica que é para outro plano que estamos vocacionados.

OF: Esse misticismo deve-se ao facto de ser um homem religioso? Como é que essa dimensão condiciona a sua visão do mundo e a sua escrita?

MC: Tem a ver uma coisa com a outra. Eu sou um homem religioso, mas gosto mais de me definir como um homem da sacralidade, que tem a consciência mais ampla da transcendência, que não reduz a religiosidade a opções de tipo clubístico ou corporativo, mas visa para além disso. Para mim, o que é importante é a presença do absoluto, de Deus, independentemente da maneira de chegar lá. No entanto, sei que a maneira de chegar lá é uma porta estreita (tenho consciência disso!) que exige disciplina, exige rigor, uma grande coragem, exige um grande despojamento, exige um grande esforço de libertação de tudo aquilo que nos condiciona. Sinto isso, independentemente de saber se o Deus se chama Alá ou se chama Jeová ou o que quer que seja.

OF: Pode ler-se na página do Projeto Vercial que “Criou um heterónimo, o poeta Tiago Veiga, hipotético bisneto de Camilo”. Embora lhe tenham feito algumas vezes esta pergunta, tendo em conta que não há registo histórico da existência desse poeta, não resisto a insistir: esta biografia corresponde à criação de um heterónimo, o alter ego de Mário Claúdio?

MC: Tenho dificuldade em responder a essa questão. A dificuldade resulta de uma razão de carácter epistemológico, que é saber o que é da área da Literatura e o que é da área da História. Muitas vezes é difícil estabelecer essa diferença. Nós falamos do romance de Camilo e falamos dos romances de Camilo. A imagem que nós temos de Camilo Castelo Branco é uma imagem construída, provavelmente não corresponderá em 80% à realidade daquilo que ele era. Depois tem os romances que ele publicou. Aqui também temos um fenómeno idêntico. Agora, se me disser que o nome dessa figura foi inventado, eu digo-lhe que sim, que foi inventado, mas a figura não foi, corresponde a uma figura do inconsciente coletivo português porque é uma figura real. A realidade dessa figura em termos de registo civil é contestável, era preciso que alguém fosse ao Rio de Janeiro, onde ele nasceu, verificar o registo, se lá está registado ou não.

OF: A sua obra tem sido escolhida como objeto de estudo para teses de mestrado e doutoramento. Vê nisso a sua consagração como escritor por parte dos académicos, corroborando a consagração dos leitores?

MC: Nessa área tem havido surpresas muito agradáveis. Nunca tive, e espero nunca vir a ter, surpresas desagradáveis. Há dois países, sobretudo, em que isso tem acontecido: um é Itália, em que tenho sido muito estudado, e outro é o Brasil. Os estudos que me têm dedicado as universidades brasileiras, de todo o território brasileiro, a Federal do Rio de Janeiro e mesmo de pequenas universidades, têm-me posto em contacto com pessoas que (e isso para um autor é muito gratificante) manifestam uma enorme paixão por aquilo que eu escrevo, seja essa paixão justificada ou não. Mas sinto que essas pessoas estão em contacto comigo, que me respeitam (é bom ser respeitado!), que me admiram e reconhecem alguma qualidade naquilo que eu faço. Em Itália também sinto o mesmo (nos outros países sinto menos, como em Espanha, França, etc.). Tanto em Itália como no Brasil há uma espécie de contínuo de teses que vão passando até de gerações de professores para outras gerações de professores como orientadores dessas teses. O que me dá ideia de que há ali uma certa vitalidade na minha obra que se mantém, não sei por quanto tempo, se calhar até por um tempo escasso, mas que está lá.

OF: Mário Cláudio é reconhecido como um grande escritor, o que é atestado pelo elevado número de prémios recebidos. Considera este reconhecimento importante? Qual o prémio que considerou mais significativo?

MC: Em relação a isso tenho a dizer que nunca me coloquei na posição de rejeitar um prémio, porque acho que só um escritor muito grande é que se pode colocar nessa posição, um pouco arrogante, de dizer “eu não aceito isto”. Eu aceitei com alguma humildade estes prémios todos, e aceitei, devo dizer, com bastante alegria, por uma razão muito simples, porque 80% desses prémios não tiveram a ver com a minha inscrição geográfica, pois sou um homem daqui do Porto, a residir no Porto, no Norte, afastado do mundo literário da capital. Portanto, se mereci esses prémios é porque eles vieram ter comigo. Nunca mexi nenhum cordelinho para ter um prémio. Nunca houve da minha parte qualquer estratégia de manipulação dos poderes dos prémios ou do júri para que me fossem atribuídos. Se os atribuíram foi porque acharam que deviam ser atribuídos. Isso foi importante.
Em relação à outra pergunta que me fez, foram de facto prémios que me marcaram muito, alguns por razões de ordem afetiva, outros de ordem, digamos, profissional. O prémio que me marcou mais, no início da carreira, foi o prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores que, nessa altura, tinha uma relevância muito maior. Hoje já ninguém fala desse prémio, mas no início da década de 80, quando o prémio foi criado, era um prémio importantíssimo, porque não havia outros. Era o Grande Prémio da Literatura Portuguesa. O primeiro galardoado foi o Cardoso Pires, no ano seguinte foi a Agustina Bessa-Luís e no terceiro ano fui eu, que era um jovem. Foi muito estimulante para mim ter acontecido nessa altura, pois foi uma espécie de empurrão, que foi muito útil e vantajoso para mim. Outro prémio que me marcou muito, por razões de ordem afetiva, foi o Prémio Vergílio Ferreira, porque conhecia muito bem o Vergílio Ferreira, fui amigo dele e respeitava-o muito. O Vergílio Ferreira foi das primeiras pessoas a reparar em mim, dizendo posteriormente, nas páginas da Conta Corrente, no Diário, que eu era um dos grandes valores da geração seguinte. Não sei se isso se confirmará ou não, mas disse isso. Portanto, sentia-me muito grato a ele por isso. Além do mais porque o Vergílio Ferreira era um homem com quem eu tinha conversas muito idênticas a estas que tenho estado a ter aqui convosco, falávamos muito de fé e questões de transcendência, etc. Ele dizia muitas vezes que tinha inveja de mim porque eu tinha esse posicionamento crente e ele não tinha. Embora tivesse feito um percurso pelo seminário, perdeu a fé e dizia isso: “eu tenho inveja, tenho inveja”. E eu sentia isso e que o facto de ele ter inveja de mim era sinal de que já havia ali qualquer coisa, de que ele queria acreditar. Querer acreditar, de alguma forma já é acreditar. É a velha frase de S. Paulo: se o procuras, já o encontraste. E isso acontecia com Vergílio Ferreira.
O outro prémio que me marcou, porque foi um prémio importante, foi o Prémio Pessoa, necessariamente, que apareceu numa fase avançada da minha vida, em que era já um escritor maduro. Tinha atrás de mim duas ou três figuras (já não me refiro às de outras áreas mas às da literatura) que tinham merecido esse prémio e lhe criaram um enorme prestígio, e vim inscrever-me, não digo com orgulho, mas com muita alegria, com muito reconhecimento também.

OF: Alguém se referiu a Mário Cláudio como um “cronista de costumes” (www.dglb.pt/sites). Como vê a sociedade atual e que papel a literatura nela deve assumir?

 MC: Essa pergunta implica que eu tenha necessariamente uma resposta moralista ou moralizante, que não é o meu caso. Não sou escritor de moralização, não sou moralista de coisas nenhumas. Limito-me a olhar para o mundo e a registá-lo na forma direta ou indireta, mais ou menos superficial nos textos que escrevo. Mas se quiser que lhe diga o que eu sinto neste momento relativamente ao mundo é um mal-estar muito grande, um grande encortinado, a sensação de que não estamos a ir para lado nenhum, a sensação de que estamos à espera de uma espécie de nó que nunca mais está a ser desatado. Não há ideologias, não há figuras de referência. Sinto isso como nunca senti ao longo da minha vida. E há outra coisa que resulta do meu quotidiano, em termos daquilo que se passa no nosso país. Cada vez que eu primo o botão do televisor para ver o noticiário e aparece o noticiário português, imediatamente passo a outro porque já sei o que vou encontrar: a imagem de misericordismo, de desistência, um certo sadismo nas notícias constantes: o que diminui, o que aumenta, as taxas baixas, os cortes, a corrupção, as pedofilias, etc. Não me revejo nesse mundo, esse mundo não tem nada a ver comigo. Por isso, rumo rapidamente ao canal Arte, que é um dos meus canais favoritos, onde às vezes acontecem coisas muito interessantes, ou o canal de História, ou o Odisseia, ou até Hollywood. Prefiro de facto fazer uma operação do tipo da avestruz, de esconder a cabeça debaixo da terra, mas eu acho que é legítimo fazer essa operação quando o que está à vista, se não fizer essa operação, é entrar completamente em parafuso e passar ao nível dos neuróticos.

OF: Numa sociedade que parece pouco preocupada com a dimensão cultural, que leitura faz da iniciativa “Na minha terra cabe o mundo todo”?

MC: Bom, isso é um caso exemplar. Também não conheço outro igual, não conheço outro exemplo de atitude, de dar mimo aos escritores como vocês têm aqui. É uma voz que está a clamar no deserto. Há uma coisa que eu tenho de dizer aqui: um escritor tem muito pouca área de intervenção no contexto em que o próprio estatuto de escritor é extremamente vago. Portanto, quando sabemos que qualquer apresentador de televisão, qualquer “bobo da corte” escreve um livro e direta ou indiretamente se intitula de escritor, perguntamo-nos “afinal quem é que é escritor?”. Se não soubermos isso, não sabemos que papel tem o escritor. Se nos interrogarmos sobre o papel que desempenham essas pessoas no mundo que temos, verificamos isto: que esses que se consideram escritores são precisamente aqueles que fazem todos os possíveis para que o mundo seja a merda que é hoje. 

OF: Passemos agora a falar especificamente da sua obra. Mário Cláudio tem uma obra multifacetada, passando pela poesia, teatro, ensaio, ficção. Mas parece haver uma certa predileção pelo romance. A que se deve?

MC: Não há uma predileção minha, o romance é que me escolheu a mim. É a área em que eu posso ter mais coisas interessantes a dizer. As outras áreas, embora paralelas e cultivadas, mantêm-se sempre marginais em relação àquilo que é a minha prática, digamos, mais sustentável, que é a escrita de ficção.

OF: Quando em 2004 recebeu o Prémio Pessoa, uma das características apontada pelo júri e unanimemente reconhecida pela crítica é a “mestria da língua” e “uma impressionante riqueza de vocabulário”. Quem foram/são os seus mestres?

MC: São os mestres de sempre. Aqueles que, infelizmente, têm vindo a ser esquecidos ou até algumas vezes mesmo insultados e que são os mestres de sempre. Sem pretender pôr-me no mesmo plano, mas no do discípulo, eu diria que esses mestres foram Frei Luís de Sousa, Luís de Camões, Padre António Vieira, Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís. É esse o correio em que eu me inscrevo e em que eu espero continuar a ficar. Não me interessam outros.

OF: Este perfecionismo com a língua não poderá levar a um certo hermetismo, afastando alguns leitores, ou poderá antes funcionar como pedagogia, levando a leitores mais cultos e linguisticamente mais exigentes?

MC: Eu não tenho que me preocupar muito com isso, mas antes com aquilo que tenho de escrever e no momento em que tenho de escrever. Se realmente as pessoas acham que aquilo que eu escrevo é algo hermético, essas pessoas ou repõe o livro na prateleira ou vão tentar decifrar o que é esse hermetismo. O que é um dos direitos do leitor! Mas a verdade é esta: eu acho que a língua portuguesa é um extraordinário manancial que é uma pena desperdiçarmos. É como se fosse um teclado de um piano, de um órgão, em que todas as teclas devem ser tocadas. Tocar só as teclas do meio é empobrecedor. Portanto, há teclas que só de longe a longe são tocadas, mas têm de ser tocadas. Por exemplo, em termos lexicais ou vocabulares, têm de ser tocadas. Não se faz isso de uma maneira programada, mas é natural que se toquem essas teclas para que elas façam parte daquilo que é o líder quotidiano da língua portuguesa, para que ela não se atrofie numa meia dúzia de vocábulos que se repetem constantemente e que não dão origem a coisa nenhuma. Eu não tenho qualquer propósito de servir um objetivo didático. Não quero ensinar nada às pessoas, quero apenas convidar as pessoas a gostarem daquilo que eu gosto. No fundo é aquilo que nós fazemos nos nossos interstícios de amizade e amor, que é integrar aqueles que amamos e que são nossos amigos no mesmo universo de interesses e de gostos. Se não gostarem, não é por isso que deixam de ser nossos amigos, mas sentimo-nos muito mais próximos daqueles que têm afinidades connosco. É isso: como autor, tenho direito a escolher a família de leitores, como os leitores têm direito a escolher os seus autores. E é nessa base que as coisas se jogam.

OF: Ao atribuir-lhe o Prémio Pessoa, o júri salientou a “tentação biográfica”. Que personalidades são “biografáveis” para Mário Cláudio?

MC: Todas. Não há nenhuma personalidade que não seja biografável, a começar por qualquer de nós. Qualquer um de nós aqui presente tem uma vida fascinante. O que é preciso é saber por onde se entra, como se vê, de que ângulo é que se vê. Neste momento estou a escrever uma biografia, que me foi encomendada (que eu hesitei muito em aceitar e depois acabei por aceitar), de uma senhora que é presidente de uma câmara municipal deste país (e que vai agora sair definitivamente), das grandes câmaras do país da esquerda (mas não foi por isso que eu aceitei!). Aparentemente aquela mulher só tem uma biografia pública, feita de inaugurações, abertura de congressos, reuniões, obras públicas, educação, saúde, etc., tudo aquilo que faz parte da área da autarquia. Mas por trás disso há uma mulher com um coração e com uma alma. E para mim foi muito importante descobrir esse coração e alma. Provavelmente ninguém se tinha chegado dessa forma a essa mulher, que é considerada uma espécie de estátua pública. No primeiro contacto que tive com ela, em que a abordei na perspetiva da alma e coração, ela desfez-se em pranto. São essas figuras que me interessam, que têm o ser e têm o fazer. Não é só o fazer que faz as pessoas, é mais o ser, ou é a tensão entre o ser e o fazer.

OF: Em várias das suas obras empenhou-se na “homenagem e divulgação de importantes figuras da cultura portuguesa”. Mas parece impor-se uma certa predileção por figuras do norte, como “Trilogia da Mão” (1993), em que “abordou a vida e obra de figuras artísticas nortenhas”, “Duas histórias do Porto” (1986), Tiago Veiga, uma biografia (2011), “Camilo Broca” (2006). A que se deve esse facto? Não há figuras biografáveis no sul?

MC: Já referi que estou a preparar a biografia de uma autarca que é do sul, de Almada. Também fiz relativamente há pouco tempo uma minibiografia de uma fase da vida de Fernando Pessoa quando escrevia uma novela intitulada “Boa noite, Sr. Soares”, em que procurei historiar o relacionamento de Fernando Pessoa com outras pessoas. Também aconteceu isso num livro meu chamado “Gémeos”, em que aparece o Goya. Portanto, não são só figuras do Norte. Mas, em Portugal, reconheço que há uma prevalência de figuras do norte do país nas minhas obras, porque eu vivo no Norte e estou mais ligado a elas.

 OF: Ao agraciá-lo com a comenda de Cavaleiro das Artes e Letras, em 2006, O Ministério da Cultura francês, através do Consulado no Porto referiu que “Com esta condecoração, recompensa-se um dos grandes mestres da literatura portuguesa, um escritor prolixo (…), autor de uma obra rica e densa que transcende a portugalidade que tão bem revela para ganhar a arte da universalidade”. Reconhece-se aqui uma das dimensões da sua obra, a portugalidade, mas afirma-se a sua dimensão universal. O que é necessário para que se atinja este patamar literário?

MC: São necessárias duas coisas: uma é a qualidade da obra, evidentemente indiscutível (e eu não sei o que determinou isso); a outra é a mobilidade, a necessidade de as pessoas irem aos sítios. Há muitos escritores portugueses que são conhecidos internacionalmente porque têm essa mobilidade, que eu não tenho, por uma razão simples: tenho medo de andar de avião. Mas o José Saramago, que não tinha esse medo, dizia sempre uma frase que nunca esqueci, e acho que é oportuno recordar agora: “aquilo que tiver de me vir ter às mãos vem”.

OF: Já que fala em José Saramago, li numa página da internet que afirmou que o Prémio Nobel da Literatura deveria ser atribuído ao Lobo Antunes e não ao José Saramago, mas que não era por uma questão pessoal. É essa a sua opinião?

 MC: Sim. Fui amigo do Saramago, dei-me sempre muito bem com ele e cheguei a dizer-lhe que achava que o prémio devia ter sido para António Lobo Antunes. E isso não fez de nós inimigos. Assim como acho que há outras figuras da Literatura Portuguesa do passado relativamente recente que deviam ter tido esse prémio: o Torga, o Aquilino, a Sophia de Mello Breyner, ou até David Mourão-Ferreira, uma figura claramente europeia, que foi um grande escritor não só na área da poesia mas também de ficção e ensaio. Mas essas coisas são sempre um pouco aleatórias, acontecem quando têm de acontecer, (é como a eleição dos papas!).

OF: Ainda a propósito de Saramago. Apesar de ser um laureado do Prémio Nobel, muitos classificam a escrita de José Saramago como de difícil leitura, sobretudo para quem tem pouco treino nessa área e se inicia na sua leitura. Acha que ele deve continuar a ser um dos autores dos programas de português?

MC: Considero José Saramago um grande autor, um ficcionista de grande qualidade. Nunca achei a escrita dele particularmente difícil, mas compreendo que seja difícil para a maior parte das pessoas. Mas fi co muito irritado quando as pessoas me dizem: “ele não sabe escrever, não sabe usar a pontuação”. Eles não conseguem perceber que é uma estratégia, pois se alguém sabia escrever, era ele. É a mesma coisa que as pessoas que assistiram às primeiras audições das obras do Stravinsky e diziam que ele não sabia escrever música porque não escrevia como o Beethoven ou o Mozart. Em relação ao Saramago, acho que é um grande autor, que deve ficar nos programas (era importante), mas não é o único grande autor daquela geração, há outros. Um que eu acho enorme é o António Lobo Antunes.

OF: Para finalizar, algumas questões breves:

- Que conselho daria a quem quer enveredar pelo caminho da escrita?

MC: Três conselhos: trabalhar, não esperar resultados imediatos no seu trabalho e assumir essa profissão como um calvário.

OF: Há algum escritor que queira destacar?

MC: Aquilo que eu acho é que era importante que as coisas deixassem de se passar desportivamente em Lisboa. Há duas grandes figuras de gerações muito mais novas do que eu, essas duas figuras estão a trabalhar no Porto, uma na área da ficção e outro na área da poesia, em que ninguém repara. Um é um ficcionista de grande qualidade que publicou agora o seu terceiro ou quarto livro, e o outro é um poeta chamado Daniel Maia Pinto, que já teve alguns prémios. É evidente que eu tenho a consciência de que, se calhar, até estou a prestar um mau serviço porque essas coisas ainda açaimam mais os ânimos contra. Mas não posso deixar, em termos de consciência, de dizer isso.

 OF: Já referiu que está a trabalhar na biografia da presidente da câmara de Almada, mas ainda sem data. Para quando a próxima obra? Já tem nome?

MC: Esse é um trabalho um bocadinho lateral em relação àquilo que tinha em curso. Estou a escrever uma espécie de autobiografia, ainda não sei se em três volumes ou num só, e tenho também uma série de projetos. Um deles está quase a sair, é sobre situações de amores humanos em que há uma grande diferença de idades. O primeiro é a relação de Leonardo da Vinci com um discípulo e o segundo é a relação de Lewis Carrol com a Alice. Sei que é calcar um terreno muito perigoso, porque estamos numa época fria e essas coisas estão todas muito latentes e num dos casos houve uma situação de pedofilia, mas as relações de pedofilia variam conforme as épocas, conforme o contexto cultural. Mas apostei em escrever isso porque acho que é importante as pessoas, de alguma forma, não reduzirem um elemento de verdade, de autenticidade, e não fazerem da relação de um homem (ou de uma mulher) de 90 anos com uma pessoa de 20 uma relação financeira, que é a tendência do nosso tempo.

Em meu nome pessoal e dos leitores d’O Forjanense, muito obrigado pela sua obra valiosíssima e pela amabilidade desta entrevista.

José Manuel Reis
O Forjanense, 26 de julho 2013

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O " Liceu" e ilustres da cultura portuguesa - 1



João de Araújo Correia,
por Gracinda Marques em " Rostos do Douro" (foto: João Costa)
Em 1912, na quinta classe, fez exames às disciplinas de Inglês e Francês no Liceu de Vila Real
.


Óscar Lopes e António Houaiss em S. Martinho de Anta, no I  Congresso Internacional sobre Miguel Torga,1993. 
( foto: João Costa)
Foi professor no liceu  de Vila Real no início da década de 40 do século XX.



Fotografia de José de Sant’Anna Dionísio
Sant'Anna Dionísio  obteve, em 1934, a transferência como professor efectivo para o Liceu de Vila Real. Viveu nesta cidade entre 1935 e 1940.


Em 15 de maio de 1937  a Tuna Académica da Universidade do Porto visita Vila Real e realiza um Sarau de gala no Teatro Avenida, em favor do Hospital da Misericórdia. São recebidos na Câmara e no Liceu. Santana Dionísio, professor do Liceu Camilo Castelo Branco, fez a apresentação da Tuna, num belo discurso, do qual retiramos este excerto:



         “-Na verdade a música é a mais perene e humana das artes. Se ela é ou não eterna, não é legítimo afirmá-lo. O que pode assegurar-se é que ela só desaparecerá com o último homem. Onde está a alma humana estão a esperança e a desesperança indefinidas, está a reminiscência de não se saber o quê, está o devaneio e o sonho. Qual a voz para exprimir as causas desses indeterminados estados de alma? Esses anseios sem objectivo? Esses inefáveis anelos do nosso espírito? Todas as Artes nasceram para o tentar dizer. Mas verdadeiramente só a Música levou ao extremo da veemência e ao mesmo tempo da discrição essa aspiração de entendimento essencial e comunicação essencial do mundo e de nós próprios. A música é uma espécie de brisa, ou antes, um misto de vento e claridade, que abre no nevoeiro do insondável abismo que é o Universo, fundas clareiras através dos quais, em certos instantes fugitivos e supremos, parece antever-se a sua mais recôndita essencialidade. Como é que o homem poderá prescindir algum dia dela?

domingo, 14 de julho de 2013

João Costa interpreta António Sá Gué

Tal como anunciado neste espaço, a livraria Traga-mundos promoveu a apresentação do romance "O Manco Entre Deus e o Diabo", de António Sá Gué. 
No final da apresentação e da conversa entre o autor e o público presente, João Costa surpreendeu Sá Gué com a interpretação do poema "Sonho", extraído da obra apresentada.

O público acorreu a esta iniciativa da Traga-Mundos.

Momento de intervenção de João Costa.  O escritor deu uma mãozinha ao segurar o "sonho" cantado pelo músico.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Apresentação de" O Manco Entre Deus e o Diabo", de António Sá Gué

                             
A mais recente obra de António Sá Gué, colaborador do Boletim Cultural, é apresentada já no próximo sábado, dia 13 de julho, pelas 21 horas, na livraria Traga-Mundos.
Comparece!

domingo, 30 de junho de 2013

João Costa interpreta Mário Cláudio

Pelo quarto ano ano consecutivo a ACARF e a Junta de Freguesia de Forjães deram corpo a uma iniciativa cultural louvável que, não sendo mediática, tem acolhido um vasto público, proporcionando um carinho especial aos escritores convidados. Desde o ano de 2010, estiveram presentes os escritores Pepetela, Inês Pedrosa, Manuel Alegre e Mário Cláudio. Para além de estabelecerem um diálogo interessante com o público, têm deixado a marca da sua mão, posteriormente eternizada em bronze.
No dia 29 de junho, no início da "conversa com", Mário Cláudio foi surpreendido com a interpretação de "Echinus esculentus", poema publicado no segundo número do Boletim Cultural da Escola Secundária Camilo Castelo Branco,  por João P. V. Costa.  Em conversa com o escritor, ficou a possibilidade de uma próxima colaboração. Entretanto, João Costa ofereceu-lhe os últimos números do Boletim Cultural.

Mário Cláudio e a recordação da "Camilo", através de alguns números da revista anual da escola.
( foto de João Costa)
Momento da preparação da mão escrevente em gesso. ( foto de João Costa)

O músico e o romancista. (foto de José Henrique Brito)


( foto de Luís Pedro Ribeiro)


João Costa na interpretação de Echinus esculentus. ( foto de Luís Pedro Ribeiro)

N.B. Em tempo oportuno, será publicada a entrevista a Mário Cláudio, realizada pelo jornal " O Forjanense".

segunda-feira, 17 de junho de 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Feira Franca

Banca da "Flora de Brincadeiras" na Feira Franca, em Vila Real, 2 de junho de 2013.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

DIA DA NÃO VIOLÊNCIA NA ESCOLA SECUNDÁRIA CAMILO CASTELO BRA






No dia 31 de maio, decorreu, conforme tradição há alguns anos a esta parte, a comemoração do Dia da Não Violência na Escola, uma vez que no dia 1 de junho, sábado, não havia atividades letivas.
Esta atividade foi dinamizada pelos alunos das disciplinas de Português do sétimo ano de escolaridade e pelos alunos de Espanhol e de Francês.
Neste ano, optou-se por dar “Um abraço de graça e com graça” em todos os espaços escolares e envolvendo toda a comunidade educativa.
Houve sorrisos.
Houve abraços sentidos.
Houve abraços consentidos.
Houve apenas abraços…numa escola onde vivem os afetos. 

Elisabete Coelho e Elza Pinto

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Arco-íris


Arco-íris


Ó Arco-íris! Meu amado Arco-íris! Porque te foste embora? Porque me abandonaste neste profundo buraco da solidão? Deixaste-me com o mar, o mar cheio das minhas e das tuas lágrimas, onde os peixes devoram sofregamente a nossa pura tristeza e morrem perante nós, pois a angústia é muita… O sol queima-me a pele, a geada arranha-me as pernas, o vento leva-me o cabelo, o frio gela-me os dedos, que antes estavam preenchidos pela tua cor e alegria… O que posso dizer? A ganância apanha-nos a todos, ficaste com o pote de ouro, esquecendo a nossa amizade…
Oh Arco-Íris, porque te embalaste na ilusão? Porque não te contentaste apenas comigo nas montanhas, onde seríamos felizes… Éramos únicos… Arco-Íris, meu amado Arco-Íris, porque me abandonaste neste cume gelado recheado com a tua frieza e a minha solidão? As nuvens riem-se de mim, e eu sinto-me cada vez mais triste, mas meu querido Arco-Íris, a esperança continua a ser muita, eu espero…espero…porém tu nunca mais vens. A lua até é simpática, contudo é um pouco, digamos…indiferente, passa a noite a olhar as estrelas…Ah! As estrelas são bonitas e muito gentis, mas nem todas me ouvem, tão alto, lá no céu…Que pena, Arco-Íris!
Vou dizer-te, com toda a sinceridade, que pressinto a morte e tenho muito medo… será dolorosa? Oh!  Arco-Íris…perguntei à estrela mais próxima de mim e ela disse, com toda a gentileza, que não sabia… a lua limitou-se a ignorar-me. Quanto aos outros, não me atrevo a perguntar, eles são tão maus…
Oh! Arco-Íris, por onde andas? Estou no cume, e sinto frio. É agora, desculpa Arco-Íris…

         Joana Carvalho – 8ºE


Passarinho



Passarinho o que tens? Desculpa, não te entendo, pareces triste, e apetece-me chorar ao ver-te assim… o que tens? Sabes, passarinho, sinto-me sozinha…Porque será? Sinto-me tão sozinha! As lágrimas não me caem no rosto, o meu cabelo foge-me, ajudado pelo vento, eu toco nas tuas penas e elas ficam pretas, porque será passarinho? A paz já não ronda na tua gaiola quem te prendeu? Quem te amarrou com as correntes do desgosto e do sofrimento? O teu sangue é o gelado Inverno, e os teus olhos são negros, sem luz nem reflexo. Porque me sinto sozinha, meu querido passarinho? Sabes, tenho medo…Tenho medo das sombras malignas que passam por este muro… Estou aqui há tanto tempo que as raízes daquela pobre árvore me prenderam a este canto, tenho medo passarinho! E se as sombras me quiserem comer? O teu canto é triste e agonizante… Será, passarinho, que te sentes como eu, na tua gaiola enferrujada? Tenho medo, muito medo das portas e das chaves: para onde me levarão? Para a morte?
 Passarinho, eu sei que estou a ser egoísta, mas se te soltar irei ficar sozinha, neste beco escuro, a ver a lua a rir-se de mim, e a luz a ir-se embora para nunca mais voltar. Será que te devo soltar, ou não? Que triste, que arrepiante… Se, ao menos, tivesse asas para voar contigo!… Adeus, meu amado passarinho, adeus…
(E assim ele foi embora e levou consigo a minha solitária alma…)


                                                                                                 Joana Carvalho – 8º E

domingo, 12 de maio de 2013

Dia da Europa "en français" na Camilo


Mais uma vez, o dia da Europa, a 9 de maio, não foi esquecido pelo grupo de francês da nossa Escola que o festejou, desta feita,  com um "Menu équilibré" na nossa cantina.
O almoço teve uma forte adesão da comunidade educativa e em especial dos alunos de francês e seus professores que tiveram o prazer de degustar o célebre "Coq au vin" versão "Júnior". Juntando o útil ( alimentação saudável) ao agradável (convívio e partilha de sabores franceses), se fez "jus" à abertura a outras culturas, que a nossa Escola nunca descura.

Por Brízida Azevedo