Divulgação informativa e cultural da Escola Secundária/3 Camilo Castelo Branco - Vila Real
Mostrar mensagens com a etiqueta prosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta prosa. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de janeiro de 2010

Em destaque

Enquanto esperamos pelo resultado do Concurso de Imaginação e Criatividade - Escrita em dia, promovido pela Coca-Cola Portugal, apresentamo-vos o trabalho de Marta Silva, um dos 20 finalistas seleccionados pelo escritor José Luís Peixoto, num universo de 250 trabalhos provenientes de todo o país.
Escapatória

Os autocarros passam um por um, quase ininterruptos, na paragem. Vejo-os ir e partir ao longe mas ainda nenhum me intrigou realmente - os lugares para onde vão são silenciosos e discretos, e eu estou à espera de um que me acene, de um que pestaneje sedutoramente do sinal luminoso que o anuncia.
A noite na cidade, escura e fria, é quebrada por luzes suaves que deslizam umas através das outras. As esquinas despem-se delicadamente diante dos faróis dos automóveis, nas ruas desertas as sombras diminuem e crescem com a nossa aproximação e afastamento.
Passo depressa pelas esquinas como se fugisse do nascer do sol, de mãos bem enterradas nos bolsos e os ombros rígidos contra o frio, as ruas geladas debaixo dos pés, uma após outra após outra. Se seguirmos durante tempo suficiente por uma rua, podemos ir até onde todas as ruas paralelas do mundo se unem num ponto de fuga secreto. É sossegado - os outros que lá chegam também não querem falar com ninguém. É a única razão pela qual alguém andaria tanto tempo em linha recta sem parar para... para ficar.
Não quero ficar no mesmo sítio. Respiro para dentro do cachecol para aquecer os lábios e o pescoço, não quero que o meu sangue pare de correr mas ir para casa está fora de questão. Estou farto desta cidade em que todas as ruas vão dar ao mesmo sítio, e já as percorri a todas muitas vezes, a horas diferentes em diferentes alturas do ano, conheço-lhes bem as manias. Sei onde há pedrinhas manhosas,
passeios tortos, candeeiros de rua esquizofrénicos, onde passam os passadores de droga e onde se passam os artistas de graffiti às quatro da manhã, a pintar as crianças esfomeadas de África numa explosão de rabiscos a preto e branco, sob a luz clandestina dos néons.
Mas à noite, no inverno, quando as ruas são minhas, numa zona obscura de sonho, preenchida apenas por nevoeiro e pela minha silhueta escura, posso fingir que estou a ir para outro sítio. Quando está mesmo frio ando com as luvas mais grossas, com o cachecol até ao nariz e com o gorro até às sobrancelhas, mas não fico em casa, porque ficar em casa seria desperdiçar a oportunidade maravilhosa concedida pelas nuvens, a oportunidade de pensar que vou para outro lugar.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Zanguei-me com o "e"



Zanguei-me com o “e”, porque nunca tivemos a mesma personalidade.
Sou demasiado diferente para conviver com ele: todas as vezes que nos confrontamos as nossas divergências vêm ao de cima.
A minha instabilidade emocional marca-me, define-me…
Quem não conseguir lidar comigo, quem não me aceitar por aquilo que realmente sou, então é melhor afastar-se. Foi isso que o “e” fez - a intolerância foi superior a qualquer sentimento racional.
Se Portugal foi realmente considerado o país mais tolerante da Europa, onde está a tolerância do “e”?
“E”… tenho um conselho para dar: aceitar os outros como eles são é uma das melhores qualidades que algum dia poderás ter.


Daniela Costa
10º A


É verdade, tive de me zangar com o e. Não foi uma escolha totalmente minha, mas foi a mais acertada.
O e já não era um verdadeiro amigo. Para mim um amigo tem de ser eternamente fiel, o e não o foi. No início articulava os meus textos, depois foi aparecendo demasiado, até que começou a prejudicar a evolução da minha escrita.
Há também outro motivo para eu estar zangada com o e: numa frase, um e nunca vem sozinho, tem sempre segundas intenções (o que eu detesto), vem acrescentar informação, alguma dispensável. Ora, eu não ajo com segundas intenções, sou verdadeira com os outros, portanto exijo às palavras, aos actos, às pessoas que façam o mesmo comigo. O e não o fez.
Foram muitos anos com ele nas minhas composições, de certeza que a minha mão vai desenhar muitos e’s enquanto escrevo, não vai ser fácil desligar-me do e de um “texto para o outro”. Vai ser muito difícil.
É sempre complicado quando tenho de “cortar relações” com alguém porque, apesar de eventuais maus momentos, a minha memória guarda sempre o lado bom. Na minha opinião, há sempre algo de positivo a retirar das nossas experiências ou das relações com os outros – aprendemos sempre, por isso fica saudade.
Eu acredito que tudo tem um fim. A minha “amizade” com o e não foi excepção, acabou agora.



Raquel Moura
10º C

domingo, 1 de março de 2009

"Cartas de amor quem as não tem"

Para ti, meu amor …

É tempo, tempo de me libertar. Tempo de dizer o que o meu pensamento esconde de ti.
O meu coração algo transporta profundo. O que sinto não é impossível disfarçar. Como é que tal sentimento se apoderou de mim? Como pude eu deixar?
Minha visão turvou quando te viu pela primeira vez, as imagens começaram a passar lentamente na minha cabeça, fiquei inconsciente por minutos. Nunca tinha sentido nada assim. Perdi o controlo, por tua causa… porque olhaste assim para mim? Caí no poço sem fundo do Amor.
Apaixonei-me por quem és, pelo que me fazes sentir quando estou contigo e pela pessoa que juntos somos.
Reges a minha vida, és o senhor do meu pensamento. És quem eu não quero perder, és tudo o que eu quero ter!
Mas porquê a perfeição nunca se atinge? Porque é que as pessoas que não queremos magoar são aquelas a quem mais sofrimento causamos?
Respondo que o amor é difícil, é preciso aguentar firmemente, é preciso perdoar, esquecer e continuar a amar perdidamente. Lutar pela felicidade ao lado de quem nos completa.
O meu maior desejo é experimentar tudo o que a vida tem para oferecer ao teu lado, sempre; é partilhar contigo os meus segredos; é poder dizer que és o Homem da minha vida, a minha outra metade, a minha alma gémea.

Apesar de tudo o que passámos, todos os problemas, todos os nossos erros aprendemos que nada, nada é perfeito, e nunca podemos desistir de ser felizes. Para ti quero o melhor do mundo, quero que experimentes a felicidade no seu estado puro. Nunca desistas dos teus sonhos, porque eu nunca vou desistir de ti.
Só quero que saibas que o que sinto é impossível esquecer, não consigo apagar este amor!
Tenho medo de te perder…

Da sempre tua, Irina

P.S: Amo-te!

Irina, 10ºA

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Inquérito à Comunidade Escolar - O Mais Belo Romance de Amor

O MAIS BELO ROMANCE DE AMOR


INQUÉRITO À COMUNIDADE ESCOLAR

A Biblioteca da CCB vai promover, até ao dia 19 de Fevereiro, a eleição dos 10 mais belos romances de amor. Destinatários: Professores Alunos Funcionários


COLABORE, ELEGENDO O SEU FAVORITO!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Ninguém é o que parece

Ninguém é o que parece ou aparece.
Todo mundo é só a ponta do seu “iceberg”


Com esta frase, o autor queria transmitir à comunidade que escondemos o nosso verdadeiro ser de toda a gente, e até de nós próprios, para nos podermos integrar na sociedade discriminadora.
É neste acto de medo que, muitos de nós, criamos personagens a que o autor chama “a ponta do nosso iceberg”. Estas personagens ajudam-nos a iludir o resto do mundo e, a maioria das vezes, até a nós mesmos, aumentando a mentira do nosso pensamento. Os nossos segredos obscuros não são o que pensávamos e entramos num estado de negação e adaptação à personagem por nós criada, para afundar o nosso iceberg.
Para mim, a verdade só é verdade até ser dita, até lá vivemos a mentira.

Júlio Dinis – nº 16 – 8ºC




Posso não parecer o que sou
Mas toda a gente em mim pensou.

Pensou no meu parecer
E no meu aparecer.

Talvez não saiba como eu sou.
Talvez eu saiba como eu não sou.

Ninguém é o que parece ou o que aparece,
Por isso ninguém desaparece.

No meu iceberg, alguém entrou …
Mas o que me interessa é saber o que sou.

Micael Pereira – nº 20 – 8º C

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Depois do Natal - Cartas ao Gorducho de Barbas Brancas


Portugal, 20 de Janeiro de 2009

Pai Natal, seu traidor,

Lembraste de mim? Sim, sou o Zequinha, filho do Professor de Matemática e da Professora de Português da terra que tu conheces muito bem! Sabes, desiludiste-me pois sempre pensei que um pedido especial merecesse um atendimento especial!!!
Em Dezembro último, escrevi-te uma carta muito bonita a pedir paz de espírito para os meus pais poderem trabalhar e fazer-me feliz mas estamos já em Janeiro de 2009 e eles continuam muito nervosos, estourados e desiludidos com o estado que o ensino leva, logo, concluo que eu não fui presenteado por ti.
Que te custava fazeres ver a verdade à Ministra de Educação para que os meus educadores não tivessem que trabalhar dia e noite e pudessem ter alguns minutos para que me prestarem atenção? Que te custava exigir-lhes menos papelada para que se sentissem menos estéreis? Que te custava deixá-los concentrarem-se naquilo que eles verdadeiramente gostam, preparar e dar aulas em condições?! Ai, Pai Natal, Pai Natal! Não fizeste o trabalho de casa e, por isso, fizeste infelizes três pessoas ao mesmo tempo.
Mas, porque sou jovem, ainda tenho esperança pois os meus pais ensinaram-me que “o Natal é quando o homem quiser”, por isso...

O Zequinha
10º J







Planeta Terra, 12 de Janeiro de 1009

Pai Natal:

Como te prometi, no Natal de 2008 não te pedi presente algum. Com a casa a abarrotar de brinquedos fúteis com os quais me entretive apenas durante uma hora para depois os esquecer, de joelhos, rezei e implorei-te paz, saúde, amor e satisfação das necessidades básicas para todos os meus irmãos do Planeta Terra. E acreditei, sabes?... Talvez ingenuamente, quis acreditar que a tua imensurável bondade satisfaria o meu profundo pedido! Contudo, esperei, esperei, esperei, e quis acreditar que o trenó se tinha atrasado e que, até aos Reis, chegaria triunfante o teu presente. Enganei-me e estou profundamente triste e desiludida contigo!
Leio nos jornais que há guerra entre Israel e a Palestina; ouço na rádio que a fome em África é cada vez mais mortífera; vejo na Internet imagens aterrorizantes de crianças em sofrimento; vejo na televisão o ódio, a desumanidade, a dor, o sangue, a morte, o roubo, o assassinato, sempre que resolvo ouvir o telejornal. Nem o Natal trouxe as tréguas… o Natal na o passa, afinal, de um embuste, de uma fase vestida de luzes e música e presentes estéreis! Foi assim o teu Natal, Pai Natal, e não foi esse o Natal que te pedi!
Como vamos resolver esta contenda? O que devemos fazer para apaziguar o meu ânimo a ponto de poder fazer as pazes contigo? Tenho uma proposta! Ora ouve: promete-me que vais distribuir a riqueza por todos os homens; promete-me que vais dar leite aos meninos com fome; promete-me que vais tornar possível o diálogo entre os homens; promete-me que os interesses económicos, religiosos, territoriais e políticos não serão superiores aos interesses de paz e amor na humanidade; promete-me que os homens reconhecerão a sua fragilidade e humanidade e vão olhar para o seu semelhante como um igual, um ser a amar… Promete-me e cumpre e eu passarei a acreditar outra vez no Natal!!!

Com esperança me despeço
Os alunos do 10º H










Planeta Terra, 12 de Janeiro de 2009

Longínquo Pai Natal:

Como te prometi há dois, neste Natal não te pedi presentes mas implorei paz, saúde, amor e satisfação das necessidades básicas para todos os meus irmãos do planeta Terra. E acreditei que a tua bondade satisfaria o meu profundo pedido! Contudo, esperei, esperei, esperei, e quis acreditar que o trenó se tinha atrasado e que, até aos Reis, chegaria triunfante o teu presente. Enganei-me e estou profundamente triste e desiludida contigo!
A realidade continua a ser a mesma: acordo todos os dias e deparo-me sempre com as mesmas misérias. Chego a duvidar da tua existência e, se pudesse voltar atrás, mudaria o meu pedido e desejaria algo mais simples, mais “localizado”, pois talvez a ambição do meu pedido te tenha confundido: repara no estado em que se encontra Portugal, em vez de “venderes” Magalhães às crianças! …
Na esperança de que esta carta te traga alguma sobriedade, espero que, desta vez, te dignes cumpri o novo pedido; por isso, lembro-te, mais uma vez, abre os olhos ao mundo, não te esquecendo deste “jardim à beira-mar plantado”!
Cumprimentos dos teus sempre crentes


10º H :David Carvalho, José Augusto, Isabel Costa, Nádia Dolores




Planeta Terra, 12 de Janeiro de 2009

Pai Natal,

No Natal de 2008, rezei e implorei-te paz, saúde, amor e a satisfação das necessidades básicas para todos os meus irmãos do planeta Terra. E acreditei, sabes?... Talvez ingenuamente, quis acreditar que a tua inexorável bondade satisfaria o meu profundo pedido! Contudo, esperei, esperei, esperei e quis até acreditar que o teu trenó se tinha atrasado e que, até aos Reis, chegaria triunfante o teu presente. Enganei-me, e estou profundamente triste e desiludida contigo.
Guerra, pobreza, fome aumento da criminalidade… são realidades presentes no nosso dia-a-dia, ao contrário do que te pedi!... Não encontro mudanças positivas e toda esta crueldade se mantém. Já cansa ligar a televisão, abrir um jornal, ligar a rádio, ir à internet ou até mesmo ouvir as conversas alheias, pois tudo se associa à morte, desilusão, dor, ódio, desumanidade e infelicidade.
Compreendo que seja difícil atender todos os pedidos, mas este era especial! Não te pedia o banal, brinquedos e outras coisas inúteis; era apenas algo indispensável à felicidade de todos os terrestres. Pedi demasiado?


Das tuas amigas:

Ana Morgado
Mara Silva
Márcia Guedes
Sara Pipo

10ºH





Planeta Terra, 12 de Janeiro de 2009


Saudoso Pai Natal,


No Natal de 2008, de joelhos, rezei e implorei-te paz, saúde, amor e a satisfação das necessidades básicas para todos os meus irmãos do planeta Terra. E acreditei, sabes?... Talvez ingenuamente quis acreditar que a tua imensurável bondade satisfaria o meu profundo pedido! Enganei-me e estou profundamente zangado contigo!!!
A minha desilusão deve-se ao facto de, todos os dias, sair de casa e ver aquele senhor, já velhote, a pedir esmola na rua!... Entristece-me o coração saber que existem milhões de pessoas na mesma situação, a passar fome, frio, sede, não só sede de comida, cobertores ou água, mas fome e sede de companhia e alegria. A solidão é a ruína de muitos deles, a desgraça de quem sofre sozinho!
Vejo também crianças entregues ao trabalho para poderem dar algum sustento à família; sofrem e lutam pela sobrevivência que não lhes vai valer de nada pois acabam por morrer na desgraça!...
Não perco tempo com palavras de piedade caridosa que toda a gente conhece, mas enfatizo as características de vida que toda a gente parece desconhecer; por isso, se te encontras acima de nós, acorda para a realidade e vê por ti próprio!
Espero que reflictas no meu pedido e que me faças voltar a acreditar no que realmente é o Natal!


Carla nº3
Débora nº5
Tiago nº15
Vítor nº16
10º H





Terra do Se Faz Favor, 16 de Janeiro de 2009


Querido Pai Natal,


Daqui escreve-te a Magda, aquela rapariga que sempre te admirou e considerou um ídolo.

Para mim, o Natal é aquela data importante. Não, não quero saber da paz, nem da família; o que realmente me interessa são as prendas e a comida que me enche a barriga. Quero lá saber do amor que enche a alma!...
Escrevo-te para te agradecer todos os presentes que me deste, apesar de terem sido poucos ( para mim, 32 prendas não é nada)… Podias ter-me dado mais qualquer coisita, mas bom... Já não é mau de todo.
Sabes, sempre olhei para ti daquela forma que sei que nunca ninguém olhará. Tu, sim, és a minha alma gémea. Sempre percebi que para ti é importante haver prendas no Natal e, a julgar pela tua enorme barriga, também percebi que aprecias todos os doces da época, hum...

Como ninguém, eu lembro-me de ti doze meses por ano… melhor, 25 horas por dia. Sim, eu por ti faço horas - extra!
Adorei o Natal! A minha casa estava cheia e tive mais três presentes que o ano passado. Quero que seja sempre assim, cada ano mais três.


Beijinho muito grande,

Magda, a descarada!!!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

momentos de ternura

- Katarina! São horas de jantar!
- Já vou, avô, já vou!
- Anda! Despacha-te senão a tua sopinha arrefece e depois não fica tão gostosa! E já sabes como é a avó! Não gosta de atrasos!
-Pronto! Já estou aqui! Avô, estás sempre a chamar-me Katarina! Não é que eu não goste, mas eu sou Rose! Mas não me importo que me chames isso! Até gosto do nome, apesar de ser antigo e estar fora de moda!
Rose olha atentamente para o avô e diz:
- Limpa a boca, avô!
- Ora, ora Katarina! Eu sei que não gostas que te chame este nome, mas as lembranças da minha mãe são muitas! Abençoada mulher!
O avô com uma lágrima no cantinho do seu olho claro e triste, olha para sua neta disfarçadamente.
Rose adorava o seu avô e não gostava nada de o ver assim, naquele estado. Então, ela tenta animá-lo com umas palavras doces:
- Avô, não fiques assim! O passado é uma lembrança que nos persegue até ao fim das nossas vidas, seja ele bom ou desagradável. Simplesmente tens que pensar positivo. O que importa neste momento é que eu estou aqui, ao pé de ti, a comer esta maravilhosa sopa, de que eu tanto gosto. Eu nunca te abandonarei!
O avô abraçou a sua neta, com um sorriso plastificado, mas que, no fundo, no fundo do seu coração, era honesto e verdadeiro.



Cláudia Martins
7º - D , Nº - 5

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A minha biblioteca ideal

Na sequência da visita guiada à Biblioteca da Escola, foi proposto a todos os alunos do 7ºano que produzissem um texto subordinado ao tema" a minha biblioteca ideal". Os alunos de cada turma escolheram os textos que divulgamos.



Imagino o meu ideal de biblioteca como um lugar colorido, alegre e divertido. Haveria sofás confortáveis para podermos folhear os livros com tranquilidade e aí o relógio pararia até ao final da história, sem interrupções desagradáveis que acontecem sempre na melhor parte da narração. Poderia haver também livros em estantes mágicas onde bastaria levantar a capa e as personagens da história falariam e contariam as suas aventuras. Movimentar-se-iam à minha volta como se eu também fizesse parte dela.
Num cantinho da minha biblioteca, gostaria que houvesse música calma para nos ajudar a relaxar para, de seguida, podermos rever as matérias das aulas com toda a concentração. Sempre que surgissem dúvidas no estudo, apareceria um Professor para nos esclarecer imediatamente. Tudo seria tão fácil, tão simples, que poderíamos pensar: “Estudar não custa!... É tão bom aprender!...”
Eu acho que as bibliotecas deveriam ser mais apelativas, vivas, alegres e coloridas e não serem apenas um amontoado de livros que esperam ser lidos.

Joana Varandas Borges, 7º C, Nº 23

A minha biblioteca teria as paredes cheias de estantes. Teria livros para crianças, para adultos, para rir, para pintar…enfim, para todos os gostos e todos os tipos de estados de espírito. Seria simplesmente perfeita!
As suas paredes seriam coloridas e não brancas pois, na minha opinião, a cor dá vida. Neste caso, vontade de ler e entrar na aventura, na fantasia, na magia que os livros originam e nos trazem.
Uma biblioteca, essencialmente, deveria ter um cantinho de leitura e um de estudo e pesquisa. Também deveria ser acompanhada por professores que conseguissem ajudar a esclarecer dúvidas que fossem colocadas pelos seus visitantes.
Não me posso esquecer de um cantinho de diversão com passatempos relacionados com o estudo, pois a brincar também se aprende, nem que seja só um bocadinho.
Para mim, a biblioteca seria o paraíso da magia, do poder de sonhar. Um livro, por mais fraco que seja, traz-nos mil maravilhas. Um livro pode mudar radicalmente uma pessoa e a sua vida. E a biblioteca perfeita seria constituída por milhares desses livros, pois um livro é um segredo que se torna um mistério e que ao ser desfolhado, de página em página, se vai revelando.

Cláudia Martins, 7º D, Nº 5

Na minha opinião, uma Biblioteca tem de ter livros variados, desde Histórias Infantis a livros para adultos. Tem de estar adaptada às novas tecnologias, tem de ter diversas mesas, tem de ser confortável, silenciosa, organizada, para se poder trabalhar.
Deve ter informações para se saber como procurar o que necessitamos.
A sala da Biblioteca tem de estar limpa e deve ter professores e funcionários que ajudem no seu bom funcionamento.
Para mim, a Biblioteca é um bom local para trabalhar e adquirir mais conhecimentos.
Tem de ser estimada por todos os que a utilizam, porque ela é de todos nós.



Miguel Ângelo Carvalho Alves, 7ºA, Nº18

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Leitura

Sobre a Leitura


O verbo “ler” suporta, muitas vezes, o imperativo. “Lê! Vai para o teu quarto e lê!” - é um conselho de pais para filhos sobejamente conhecido e nem sempre seguido! “O livro é algo sagrado! Como é possível que haja quem não goste de ler?!”- gritam os pais. “Por favor… Estamos no século do audiovisual!”- exclamam os filhos.
Partidos fora de equação, é um facto que a leitura não pode ser imposta, mas sim uma actividade associada ao prazer. Que criança não gosta de ouvir os pais a contar histórias antes de adormecer ou envolver-se em aventuras, lutar com dragões, ser o herói? Nesta fase, elas são os verdadeiros leitores e os pais um livro pois estes ensinam-lhes tudo o que se pode saber sobre um livro ainda antes de elas mesmas saberem ler. Mostram-lhes uma enorme diversidade de seres imaginários, iniciam-nos nas alegrias de uma viagem e mergulham-nos na solidão extremamente povoada de um leitor...
Mas o que acontece quando se tornam maiores? Porque perdem esse gosto? Sinceramente, não sei! Poderá ser por terem tido o azar de começarem por um mau livro?! Efectivamente, alguns livros são simplesmente melhores que outros, tal como os autores, na minha modesta opinião de leitora, pois já me apercebi que só alguns podem proporcionar-nos aventuras que ficam na nossa memória para toda a vida!...
De qualquer forma, assiste-nos o direito de não ler, mas, quer queiramos quer não, ler é essencial! Efectivamente, lendo um bom livro, ficamos a conhecer novos mundos, vivemos aventuras e conhecemos até mesmo um pouco mais de nós próprios. No final da leitura de um livro, ficamos a conhecer novas pessoas, novos mundos, ficamos com novas experiências e com novas imagens na nossa memória. Nada estimula mais a nossa imaginação do que a leitura! Tal como as pessoas, os livros podem ser intrigantes, alegres, assustadores… Os livros partilham sentimentos e pensamentos, interesses e opiniões. Os livros colocam-nos noutras épocas, noutros locais, em contacto com outras culturas. Os livros ajudam-nos a sonhar, fazem-nos reflectir…
Para além disso, a leitura desenvolve a capacidade verbal pois absorvemos, naturalmente, expressões, palavras… ficamos com um vocabulário extremamente extenso e uma escrita muito melhorada. Podemos aprender gramática na escola mas nada se compara ao que tiramos por nós próprios dos livros, sem ser preciso decorar listas e listas de conjunções, nem aprender qualquer regra de formação.
Ler é também um dos actos mais individualistas que existe. Cada um de nós tem uma diferente opinião sobre um dado livro, cada um de nós faz uma abordagem diferente. Mas o melhor método é, sem dúvida, reler um livro várias vezes, variando nas abordagens, tirando assim mais partido do livro.
Comparada ao cinema, ao rádio e à televisão, a leitura tem vantagens únicas. Em vez de precisarmos de escolher entre uma variedade limitada, podemos escolher entre as melhores obras do presente e do passado; ler onde e quando mais nos convém, ao ritmo que mais nos agrada, podendo retardar ou apressar a leitura; interrompê-la, reler ou parar para refletir, a nosso bel-prazer; ler o quê, quando, onde e como bem entendermos, flexibilidade que garante o interesse contínuo pela leitura! Mas…a infortunada verdade impõe-se e é indesmentível que uma grande porção da população não gosta de ler. E porquê? Talvez porque não saibam ler, no verdadeiro sentido da palavra. Ler não é verbalizar um conjunto de letras, de palavras. Ler é “digerir”, “processar” palavras que se associam a um conjunto de emoções, sentimentos e à nossa consciência do mundo e passam a fazer sentido.
Como disse Franz Kafka, “Um livro serve como um machado para o mar congelado dentro de nós.” Porque o gelo gela a vida, ler é urgente!!!

Beatriz Loureiro, nº 26, 10ºG

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Desejada

Texto criado, a partir de um conjunto de palavras: Desirée, bebé, expulsão, escravos, morte, casamento, plantação de algodão, preconceito, brancos, amor e discriminação.

Elisabete Simas Coelho


Contrariando as contas e as luas das mulheres da propriedade Whitestone, Savana, nasci antes do tempo, num alarido de águas e gritos. Minha mãe, espantada e exausta, entregou-se às mãos experientes de Rosie, a mais velha das escravas. Foi ela quem me lavou e embrulhou no pano de algodão criado e tecido pelas suas mãos carinhosas. Foi o meu primeiro casulo.

Pela porta entreaberta da barraca de madeira vejo escoar-se o dia. O sol é laranja quente como o de África que nunca vi. Rosie dizia que, a esta hora do dia, o sol se fazia bonito para receber a lua, numa fogueira de paixão. A lua respondia-lhe, fria, ignorando-o. Rosie brincava com as palavras para me ensinar que aqui a explosão é o caminho para a expulsão. E eu não queria sair de Whitestone. Rosie era boa comigo. Cantava para me adormecer e foi minha mãe quando a minha mãe morreu. “Desirée, a tua mamã foi com as borboletas. Está no céu e olhará sempre por ti, bebé.”


Sei que as borboletas são minhas amigas. Vivem em casulos de seda nos cedros vermelhos. Lembro-me de um dia em que estava muito calor. Sentei-me junto ao tronco do cedro grande que fica na margem do Velvet Creak, ao fundo da propriedade. Aninhei-me e adormeci. Quando acordei, as mil pétalas do cedro soltaram-se e voaram no céu limpo de azul. A mamã dizia que as borboletas eram flores com asas de anjo. Agora sei para onde vão. Já as vi no escritório do senhor Whitestone. Na parede, junto da colecção de armaria, são muitas. Todas em fila. Têm um alfinete espetado no peito e, uma vez por semana, eu limpo o pó da sua moldura.

Querida Rosie, onde estás? Quero tanto ouvir as tuas histórias. O senhor Whitestone disse-me que foste visitar uma prima em New Orleans. Sempre disseste que não tinhas família além de nós. Deixa estar. Sei bem que não voltas, tanto como sei que o sol voltará amanhã. Vem procurar o seu irmão algodão. Brilha tão intenso que cegará os nossos olhos negros escravos.

Mais um dia passou, numa sucessão desta morte muda e lenta a que o nosso pastor Alvin Stuart chama vida. Ele jurou-me que há salvação para as almas quebradas pela dor, mas é necessário provar o arrependimento primeiro. Não sei se percebi as suas palavras. Arrepender? Sei apenas que, depois de provar o porto da garrafeira do senhor Whitestone, o pastor Alvin ilumina-se numa irmandade com o ar e a água e a terra. Diz palavras bonitas que aquecem a nossa esperança até acabar o serão.

O vinho deve ser o líquido mágico da comunhão das almas. Limpo o seu vidro frio, mas nunca o provei. Assusta-me. Se tentar este elixir, serei Eva depois da maçã? Mãe-negra que nasceu do nada? Tenho medo que os meus olhos, uma vez abertos, não se fechem mais e estarei condenada a ver para sempre. Prefiro a ignorância sábia e quero a cegueira clara de saber quem sou: negra bonitinha de Whitestone, da propriedade e do dono com o mesmo nome.

Arrefeceu com a noite. Aqui, sentada no chão da cabana, encosto a cabeça à cama dura onde não durmo. Fecho os olhos e ouço o murmúrio da imensidão do campo de algodão. Consigo ouvir o rumor das águas do Velvet Creak, essa nesga de rio onde os escravos lavam as mãos, depois do sol deixar o céu escuro. Quase tão negro como a alma do capataz Jonathan. Que horas serão? Não tenho relógio. Nós, escravos, não temos relógios porque o tempo é o sol e a lua e o frio e o calor. Não tem medida, só sentidos.

O senhor Whitestone tinha um relógio de bolso que veio da Europa, onde não há preconceito. Foi uma prenda de casamento. Era tão dourado e brilhante que desapareceu. A minha mãe foi acusada de o roubar. Bateram-lhe. Ela implorou, disse ao capataz que não sabia de nada. Ele não acreditou. Nesta plantação de algodão só a rama e a alma suja dos brancos reclamam a inocência. Fecharam a minha mãe aqui, nesta cabana onde estou. Ela era fraca. Lembro-me depois do pranto das mulheres e do silêncio dos homens. Por que razão choravam? A mamã parecia dormir. Entre nós escravos não há discriminação. Todos sofrem por igual.

Escureceu tanto. Não se vê já a lua. O silêncio cala tudo lá fora. Ergo-me a custo. O corpo está dorido. Deito-me neste altar onde não durmo. O chão sempre foi a minha cama. Está mais próximo da verdade. Encosto o ouvido e escuto as criaturas da madeira. Gosto de adormecer sobre as tábuas do chão e penso num mundo ao contrário. Por cima de mim haverá mais terra e um casulo de silêncio. Por baixo de mim a voz rouca da Rosie embala-me:

“Eat your soup. Eat your pie. Hush, little baby. Don’t you cry...”

Ouço passos. É ele, o capataz Jonathan. Não perde tempo. Como sempre, arrasta as botas pelo chão. Como sempre, tosse e tacteia pelo quarto até encontrar o meu corpo. Agora começará numa babugem de palavras de amor mastigadas com ódio e saliva azeda. Cerrará os dentes que rangem e rastejará como um verme por mim acima, por dentro de mim. Num abraço que estrangula e sufoca, sintir-lhe-ei o cheiro a suor e a milho verde que se cola à pele. Ficarei muda, hirta, paralisada, mas não já de medo como da primeira vez. Onde estás, Rosie? Tu e a mamã estão a ver-me agora.

Ouço passos. É ele. Não perde tempo. Como sempre, arrasta as botas pelo chão. Tosse e tacteia pelo quarto até encontrar o meu corpo. Fico muda, hirta, paralisada. Ele desliza por mim, numa lentidão cansada. O seu corpo enorme prepara o ritual de pesadelo de todas as noites. Lentamente, agarro no punhal de prata, que tirei da colecção do senhor Whitestone, e que guardei, debaixo do travesseiro, para este dia. Como se adivinhasse o meu gesto, ele ergue o tronco. Com uma força que até então desconhecia em mim, num gesto rápido, desfiro um golpe breve e profundo no pescoço.

Amanhã o sol nascerá e de novo cegará os olhos dos escravos. Feriremos as nossas mãos negras nos espinhos e o algodão será vermelho como o sol do poente. Depois lavaremos as nossas mãos na água escura de Velvet Creek. Ouço a voz da Rosie:

“Eat your soup. Eat your pie. Hush, little Desirée. Don’t you cry...”